Por monica.lima

Rio - No Brasil há 40 anos com a marca Norgren, a multinacional da área de engenharia IMI iniciou neste mês um processo de reestruturação global para integrar suas mais de 20 empresas e 12 mil empregados debaixo de um mesmo guarda-chuva. No país, a mudança significa a consolidação de quatro companhias que passam a operar com a marca IMI: a Norgren, que atua no ramo de automação industrial e indústria automotiva; a Interativa Válvulas e a CCI, voltadas para o ramo de óleo e gás; e a Tour & Andersson, fabricante de válvulas e sistemas para climatização de ambientes. “O objetivo não é só redução de custos mas também obter sinergias, principalmente na área comercial”, explica Ricardo Rodrigues, presidente da divisão IMI Precision Engeneering para a América Latina.

A divisão de engenharia de precisão (precision engineering) é uma das três que vão agrupar todas as empresas historicamente adquiridas pelo grupo, fundado há 152 anos no Reino Unido. As outras duas divisões são as de engenharia para instalações críticas (projetos focados em fatores como segurança e confiabilidade) e engenharia hidrônica (sistemas que usam água como meio de transmissão de calor, para aquecimento ou resfriamento). Com faturamento equivalente a R$ 6,9 bilhões em 2013, o conglomerado tem hoje 5% de sua receita proveniente da América Latina. Desse total, mais da metade vem da operação brasileira. “Vamos analisar opções de aquisição. Queremos dobrar o faturamento no Brasil até 2019”, antecipa Rodrigues.

Depois de uma fase inicial de integração de todas as marcas, a reestruturação incluirá — no longo prazo — investimentos na operação brasileira abrangendo a inovação de produtos e fábricas, a cadeia de distribuição, o serviço ao cliente e o suporte ao pós-venda. Ao todo, as quatro empresas do grupo no país somam cerca de 400 funcionários — a força de trabalho sofreu redução de 20% por conta do enfraquecimento da demanda em 2014. “Foi um ano difícil para a indústria. Nossas vendas para as montadoras caíram 15%”, conta Rodrigues, que tem nos fabricantes de caminhões e na indústria petroquímica dois clientes de peso. “Mesmo sem perder clientes, o volume de pedidos de peças para a indústria de caminhões sofreu retração de 35%”, acrescenta ele, referindo-se às encomendas feitas à Norgren. Apesar da desaceleração econômica no ano passado, a IMI aposta numa melhoria no médio prazo, especialmente no segmento de óleo e gás. A atuação do grupo nessa área é relativamente recente no Brasil — as primeiras operações foram iniciadas entre 2008 e 2009. Em 2012, a IMI reforçou sua posição no segmento ao adquirir a Interativa Válvulas. Depois de crescer em média 30% ao ano, a operação brasileira voltada para óleo e gás tende a permanecer estagnada em 2015. “A curto prazo está tudo parado”, afirma Rodrigues, referindo-se aos impactos da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, que desbaratou um esquema de corrupção na Petrobras. “Todo mundo está com um orçamento mais conservador, não só a Petrobras. As empresas estão pisando em ovos, mas ouço falar mais em postergação de projetos. São poucos os cancelamentos.”

Para o executivo, a Lava Jato abre oportunidades para as companhias estrangeiras de engenharia. No fim do ano passado, a Petrobras anunciou a suspensão dos negócios com 23 fornecedoras citadas na operação da Polícia Federal. As companhias na lista estão temporariamente impedidas de serem contratadas e de participar de licitações da estatal.

“Não tenho dúvida que isso abre possibilidades para outras empresas de engenharia”, concorda Ernani Teixeira Torres Filho, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A questão é saber se essas oportunidades serão aproveitadas”. Torres Filho lembra que, após a abertura do mercado brasileiro de petróleo, no fim da década de 90, empresas americanas e espanholas de engenharia aportaram no país. “Entraram e foram embora. O Brasil não é considerado um país fácil de operar, por causa das legislações tributária e trabalhista, e das restrições ambientais”, exemplifica. Na avaliação do economista da UFRJ, há muitos fatores a se considerar quando se trata da abertura de mercado para empresas estrangeiras de engenharia. “Trata-se de um processo que não é assim tão automático”, resume Torres Filho.

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