Por bruno.dutra

Rio - Sob pressão devido ao declínio nos preços do petróleo, hoje abaixo de US$ 50 por barril, as empresas de óleo e gás vão cortar investimentos, afetando diretamente os ganhos dos prestadores de serviços. Caso o preço do barril de petróleo se mantenha abaixo dos US$ 60, as companhias de exploração e produção (E&P) americanas devem cortar de 30% a 40% dos investimentos, enquanto entre as petroleiras de fora dos Estados Unidos a retração tende a ficar na faixa entre 10% e 20%, dependendo da evolução nas cotações da commodity. O cenário negativo aparece em relatório da Moody’s, assinado por Steve Wood, diretor gerente de Finanças Corporativas da agência de classificação de risco.

“Preços mais baixos do petróleo vão reduzir diretamente o fluxo de caixa em 2015 para empresas de E & P, que tentarão compensar esse déficit reduzindo seus investimentos de capital”, explica Wood em sua análise. A retração na receita das empresas de serviços que atendem as companhias de exploração e produção seria consequência da diminuição da atividade no setor e do esforço de negociação das petroleiras para reduzir preços dos contratos, acrescenta o diretor gerente da Moody’s.

Na avaliação da agência de classificação de risco, este ano será o pior desde 2009 para as empresas de perfuração offshore (no solo marinho), por conta da onda de novas entregas de plataformas prevista para 2015. E, também, devido aos baixos preços do petróleo. Em junho do ano passado, o barril da commodity alcançou a cotação de US$ 105, mas no início deste ano valia US$ 55. Ontem, o barril do petróleo do tipo brent fechou cotado a US$ 48,44, uma queda de 2,34% motivada pelo fato de o estoque dos Estados Unidos ser o maior desde 1931.

As principais companhias petrolíferas integradas têm sido mais comedidas em sua resposta à queda nos preços do petróleo do que as de E&P e de serviços. Essas duas últimas categorias são — segundo a Moody’s — as mais expostas ao risco gerado pelo derretimento nas cotações da commodity. A reação menos intensa das empresas que atuam de forma integrada está ligada ao fato de os projetos desenvolvidos por estas companhias levarem muitos anos para serem totalmente desenvolvidos, sustenta Wood.

Outro fator favorável às grandes petroleiras é o preço adotado por elas para balizar suas decisões de investimento. Normalmente esse valor fica entre US$ 50 e US$ 60, de forma a garantir que o investimento se pague em todas as fases do processo de produção. “Mesmo assim, algumas companhias já anunciaram redução nos investimentos em 2015, incluindo a ExxonMobil, a Royal Dutch Shell e a Total. E outros cortes provavelmente irão ocorrer, incluindo Chevron e BP”, acrescenta o diretor gerente Finanças Corporativas da Moody’s.

Os preços decrescentes do petróleo vão complicar os esforços do setor de midstream (transferência, transporte e armazenamento do petróleo e gás natural) para manter o crescimento de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) na faixa entre 12% e 15% neste ano, adverte a agência. A dificuldade também seria consequência da diminuição nos investimentos em produção e exploração. A Moody’s estima que uma retração de 25% ou mais no capital investido pelas operadoras de E&P resultaria numa mudança na perspectiva de crédito do setor de midstream de estável para positivo. Ainda neste mês, durante a temporada de elaboração de orçamentos, uma série de empresas de exploração e produção já haviam sinalizados cortes de gastos iguais ou superiores a 25%, informa o relatório.

“Muitas das companhias de perfuração offshore terão de renovar contratos de plataformas em operação a taxas significativamente mais baixas e, com isso, as prestadoras de serviço terão menos encomendas e flexibilidade financeira”, alerta a Moody’s. No relatório, Wood lembra que Seadrill Limited e Transocean eram as empresas com maior número de plataformas não contratadas no início de 2015. Hercules Offshore e Paragon Offshore também passarão por um período de estresse por terem frotas grandes de plataformas autoeleváveis (jack-up rigs) e posições significativas em aberto.

'O equilíbrio deve vir no segundo semestre'

Ainda não há sinais no horizonte econômico de uma mudança que impulsione para cima os preços do petróleo, avisa Steven Wood, da Moody’s. O estresse econômico no setor de óleo e gás vai continuar e será sentido com mais intensidade pelas pequenas empresas que ocupam a base da escala de rating. São essas companhias que tendem a sofrer com a falta de liquidez, já que os investimentos em novos projetos de exploração e produção passam por um enxugamento. Para Wood, o mercado deve passar por uma fase de consolidação.

 Há no momento algum fator que possa elevar o nível atual de preços do petróleo?

Não vemos nenhum catalisador, nenhum fator no curto prazo que possa alterar essa equação. Nós achamos que o mercado foi para um nível demasiadamente baixo e, por isto, os preços vão voltar a subir. Mas em termos de oferta e demanda, a demanda não vai mudar rapidamente. Então, essa realmente vai ser uma questão de reação da parte dos compradores. A questão é saber de onde viria essa reação. Poderia vir de uma desaceleração no crescimento dos Estados Unidos, mas nós continuamos esperando que a economia do país siga crescendo. Não no mesmo ritmo anterior. Pode se expandir a uma taxa que é a metade da registrada no ano passado, mas isso ainda significa milhões de barris por dia.

E a possibilidade de uma diminuição na oferta de petróleo?

Seja com relação a países individuais ou à Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), ao México, à Rússia ou a outros grandes produtores, não vemos isso acontecendo. Certamente não vemos essa possibilidade no Brasil. A menos que haja uma mudança entre os grandes produtores, acho que vai levar um tempo — provavelmente na segunda metade de 2015 — para o mercado atingir um equilíbrio.

As perspectivas desfavoráveis para 2015 são um estímulo à consolidação?

Acho que vamos começar a ver alguma consolidação dentro da indústria. Neste momento, é difícil ocorrer alguma transação, porque as companhias que estão dispostas a serem adquiridas querem ser avaliadas por US$ 80 [o barril, ainda como parte das reservas] e as compradoras querendo pagar, digamos, US$ 50, ou mais baixo que isto. Vai levar algum tempo para as pessoas terem uma noção de quando os preços vão se estabilizar.

Em seu relatório você sustenta que as empresas de perfuração devem ter em 2015 o pior ano desde 2009. Quando terminará o “inferno astral” dessas companhias?

O mercado [para essas empresas] deve se reequilibrar e superar as dificuldades em 2017. Mas agora temos uma situação em que há muitas plataformas novas entrando no mercado. Esse excesso de oferta de plataformas de perfuração, combinando ao enfraquecimento no preço da commodity e à expectativa de uma demanda mais fraca por parte dos produtores nos faz acreditar que o mercado deve permanecer ruim ao longo de 2015 e, provavelmente, em 2016, à medida em que os contratos vencerem e forem renovados a taxas mais baixas.

China é hoje o maior importador mundial. Os preços mais baixos do petróleo devem contribuir para uma aceleração na expansão do Produto Interno Bruto daquele país?

Apesar do menor crescimento do PIB chinês em 2015, a estagnação da produção doméstica de petróleo no país significa que as importações vão continuar aumentando mais rapidamente do que o consumo. A queda nos preços do petróleo resultará na diminuição dos lucros e do fluxo de caixa das três empresas chinesas integradas do setor de óleo e gás.

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