Por monica.lima

Rio - Quatro unidades industriais localizadas na foz do rio Guandu serão as primeiras indústrias afetadas no Rio com um eventual agravamento da crise hídrica. Em maior ou menor escala, Gerdau, Companhia Siderúrgica do Atlântico, Fábrica Carioca de Catalisadores e Furnas vêm investindo em aumento do reúso de água, para reduzir a dependência de fontes externas, mas apenas uma mudança no sistema de captação pode evitar maiores problemas. Ontem, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, admitiu que a redução do volume captado pelo Sistema Guandu no rio Paraíba do Sul é cada vez mais provável e deve ser adotada ainda este ano.

As quatro unidades ficam próximas à foz do Guandu, onde o rio é conhecido como Canal de São Francisco. Juntas, captam um volume de cerca de 3 metros cúbicos por segundo — pouco, perto da vazão de captação do Guandu, que chega a 140 metros por segundo atualmente —, mas dependem de grandes volumes para evitar que o mar avance sobre o canal, trazendo água salgada para seus pontos de captação. A proposta em análise pela Agência Nacional de Águas e pelo governo estadual prevê a redução para até 110 metros cúbicos por segundo, volume que poderia causar problemas.

As empresas evitam entrevistas sobre o tema, limitando-se a notas onde discorrem sobre os investimentos feitos nos últimos anos para reduzir o consumo de água e informam estar estudando alternativas para enfrentar o problema. A solução apresentada pelo governo do estado é um projeto elaborado há quase 10 anos, que prevê uma adutora de 14 quilômetros ligando as indústrias à estação de tratamento da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae). Um grupo de trabalho foi criado pelas empresas para discutir o assunto.

“As empresas tinham garantia de uma vazão mínima de água e não se preocupavam. Agora é que o problema se tornou visível”, comenta o diretor geral do Comitê Guandu, Décio Tubbs. “Agora terão que discutir com suas matrizes ou conselhos de administração a viabilidade do investimento”. De fato, o governo já informou às empresas que não pretende aportar recursos na obra. “Na nossa avaliação é que esse investimento tem que ser privado, já que é para o abastecimento deles”, reforçou ontem o secretário de estadual de Meio Ambiente, André Corrêa.

Outra proposta levantada ontem é a construção de um dique na foz do rio para evitar que a maré chegue aos pontos de captação das empresas. A Gerdau e a CSA informaram que a água de reúso é responsável hoje por 96% do consumo interno das unidades. “A Gerdau está buscando aumentar ainda mais a eficiência interna desse reúso, reduzindo a captação externa”, afirmou a empresa, em nota oficial. Já a CSA afirmou que “implementou um plano de redução de uso de água diminuindo em 20% a captação junto ao canal do São Francisco”.

Até o momento, dizem as empresas, não houve problemas operacionais relacionados à falta de água. Mas todas olham o futuro com desconfiança. “A empresa está estudando alternativas para o caso de redução da vazão da água no local”, informou Furnas, que opera a térmica Santa Cruz, última das unidades industriais na foz do rio. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) também vem contribuindo no esforço para encontrar uma solução que permita às empresas manterem a operação sem impacto ao consumo humano.

Segundo especialistas, a redução da vazão para 110 metros cúbicos por segundo não teria grande impacto no consumo humano da região atendida pelo Sistema Guandu, limitando os danos à atividade industrial. Além das quatro empresas, há ainda duas cervejarias e outras duas térmicas, entre outras unidades fabris, com outorgas para captação de água no rio. Estas, porém, estão localizadas em regiões mais altas e não correm risco com a salinização da água.

O governo do Rio anunciou ontem medidas também para a Refinaria de Duque de Caxias, da Petrobras, que terá que captar água de reúso da Estação de Tratamento de Esgoto de Alegria, também operada pela Cedae.

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