Por monica.lima

São Paulo - Com a expectativa de movimentar globalmente US$ 96 bilhões em 2025, segundo a consultoria infoDev, o equity crowdfunding — modalidade de financiamento coletivo que, diferentemente do crowdfunding tradicional, se baseia no investimento coletivo em troca de participação em start-ups — ainda engatinha no Brasil.

Em pouco mais de seis meses no ar, a Brootas — plataforma pioneira no país —, já captou R$ 700 mil, distribuído entre quatro projetos, sendo o financiamento da própria Brootas o marco do lançamento da iniciativa. Entre pessoas físicas e fundos de investimento, os processos atraíram 150 investidores.

“Para 2015, nossa projeção é de que a captação no mercado brasileiro não passe de R$ 5 milhões. Mas em dez anos, a expectativa é que esse montante alcance R$ 1 bilhão”, diz Frederico Rizzo, sócio-fundador da Brootas. “ Queremos fechar o ano com dez projetos captados”, afirma.

Ainda sem uma regulação específica para esse tipo de investimento, a alternativa encontrada pela Brootas para operar sua plataforma é um artigo da instrução 400, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de 2003. Segundo o texto, as micro e pequenas empresas podem captar até R$ 2,4 milhões a cada doze meses, sem a necessidade de registrar a oferta pública. Como as micro e pequenas empresas são sociedades limitadas e não podem oferecer cotas de participação, a regra abre a opção dessas companhias emitirem títulos de dívida na captação. O investidor pode converter os títulos em participação societária. O prazo para que isso aconteça é determinado na oferta e, em média, varia de três a cinco anos. Para validar o processo, as empresas que receberam os aportes precisam transformar-se em sociedades anônimas. “Inicialmente, o investidor é um credor daquela empresa e não tem nenhuma coresponsabilidade caso o projeto fracasse”, diz Rizzo. “Todas as empresas que captamos até o momento utilizaram uma taxa de remuneração dos títulos de 3%”.

Para os defensores do equity crowdfunding, o modelo traz vantagens para empreendedores e investidores. A principal delas é a democratização do mercado. No caso das start-ups, a oferta de capital passa a ser mais ampla, ágil e pulverizada.

E com mais opções, a novata tem mais poder de barganha do que no processo tradicional para buscar um preço justo para o seu projeto.

Para o investidor, o único pré-requisito para participar da Brootas é o aporte mínimo de R$ 1 mil por projeto. “Hoje, a maior parte dos investidores na plataforma está em cidades do interior. São pessoas com apetite para investir, conectados com inovação, mas que têm dificuldade para participar desse mercado”, explica Rizzo. Segundo o executivo, o modelo também favorece a diluição dos riscos.
No momento, a Brootas tem outros quatro projetos em fase de captação, entre eles a Mercode, marketplace de delivery de supermercados, empórios e hortifrutis, que já captou 64% de sua oferta. Rizzo destaca, no entanto, que a proposta é ser mais que uma intermediária de investimentos. “A plataforma funciona como uma rede social para empreendedores e investidores, na qual é possível criar perfis, fazer conexões, apresentar ideias e buscar parceiros para o seu projeto”, diz.

Os projetos em captação trazem um perfil prévio, que inclui as questões normalmente formuladas por investidores. A avaliação é reforçada por apresentações e fóruns on-line. Para aprimorar a negociação, o processo pode ser liderado por um investidor âncora, que se compromete a investir um capital mínimo de R$ 25 mil e precisa ter ao menos dez anos de experiência na área. Concluída a captação, a Brootas oferece uma área exclusiva para que os empreendedores prestem contas da evolução dos projetos aos seus respectivos investidores. A empresa tem duas fontes de receitas : a cobrança de uma taxa, em média, de 7,5%, sobre o valor captado; e uma taxa de 5% do lucro realizado do investidor, caso ele tenha ganhos com projeto em até dez anos.

A Brootas está prestes a ganhar sua primeira rival no país. Com uma proposta e recursos semelhantes, a brasileira EuSocio planeja lançar em março a captação dos três primeiros projetos por meio de sua plataforma. “Já temos cerca de 2 mil cadastros, sendo que dois terços são investidores. Nossa meta é fechar dez captações até o fim do ano, com ofertas totais de R$ 300 mil a R$ 500 mil”, diz Bernardo Herzog, executivo da EuSocio. “Queremos atrair um dinheiro novo para esse mercado. Trazer executivos, gestores e CEOs de empresas que hoje não investem nesse ambiente por conta do ticket alto”, afirma. Para participar do EuSocio, é obrigatório que o investidor seja aprovado em um questionário sobre capital de risco.

Herzog destaca o número ainda escasso de projetos com maturidade suficiente para receber suas primeiras rodadas de investimento como o principal desafio para escalar o equity crowdfunding no Brasil. Sob essa visão, a EuSocio está direcionando grande parte dos seus esforços nesse primeiro momento à divulgação de conteúdos e melhores práticas para as start-ups, em quesitos como elaboração de projetos e governança corporativa. A oferta de ferramentas de relacionamento entre empreendedores e investidores, como fóruns e canais de interação, complementam essa estratégia.

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