Por bruno.dutra

São Paulo - Duas companhias europeias com 150 anos de história, antigos símbolos da indústria de seus países e que hoje lutam para recuperar terreno, após perderem espaço para rivais e enfrentarem processos de fusão desafiadores. Esse é o pano de fundo para a nova empresa que será formada a partir da compra da francesa Alcatel-Lucent pela finlandesa Nokia. Baseado em troca de ações, o acordo avalia a Alcatel-Lucent em 15,6 bilhões de euros e promete redefinir a competição no mercado de equipamentos de rede de telecomunicações, hoje liderado pela sueca Ericsson e pela chinesa Huawei.

“Nossa capacidade de inovação será extraordinária e temos tecnologias extremamente complementares. Vamos ter uma forte presença em todo o mundo e esperamos ter escala para liderar qualquer área nas quais escolhermos competir. Por todas essas razões, acredito realmente que esse é o negócio certo, com a lógica certa, no momento certo”, afirmou Rajeev Suri, executivo-chefe da Nokia e que exercerá a mesma função na nova operação, em comunicado oficial.

A expectativa é que o acordo seja concluído no primeiro semestre de 2016. A nova companhia atuará sob a marca Nokia e terá sede na Finlândia. Após a transação, a Nokia deterá 66,5% das ações. Os 33,5% restantes caberão aos acionistas da Alcatel-Lucent. Entre as sinergias no radar, a nova operação estima alcançar uma redução de custos operacionais de cerca de 900 milhões de euros ao fim de 2019. Nesse intervalo, a projeção de crescimento composto médio anual é de 3,5%.

A união de forças no desenvolvimento de novas tecnologias é um dos pontos ressaltados pelas duas companhias. A nova operação terá mais de 40 mil profissionais de pesquisa e desenvolvimento, centros de inovação em países como França, Alemanha, Estados Unidos e China, e um investimento combinado — levando-se em conta os números de 2014 — de  4,7 bilhões de euros. A partir dessa estrutura, a expectativa é reduzir a distância para os rivais e avançar em frentes como o 5G, a computação em nuvem e a internet das coisas. Segundo estimativas da Nokia, a nova operação tem pela frente um mercado potencial 50% maior do que os segmentos explorados hoje no setor. O valor projetado é de 130 bilhões de euros.

Como parte das estratégias de P&D e das negociações para a aprovação do acordo, a Nokia informou que irá criar 500 vagas em pesquisa na França, em linha com a promessa de empregos dada ao presidente francês, François Hollande. Outro projeto é a criação de um fundo de  100 milhões de euros para investir em start-ups francesas, com foco em áreas como internet das coisas.

Ignacio Perrone, gerente de indústria de telecomunicações da Frost & Sullivan na América Latina, destaca que as vantagens esperadas no plano global não diferem dos impactos no mercado latino-americano. No entanto, ele destaca a integração das operações como um grande desafio. “Normalmente, esses processos são complexos e as duas empresas têm um histórico complicado de fusões que não vingaram e de mesclas de muitas culturas”, afirmou ao Brasil Econômico.

No caso da Nokia, o analista se refere à joint venture mantida com a Siemens até 2013, quando a finlandesa assumiu 100% da operação. Antes, disso porém, a empresa em questão enfrentou dificuldades, expressas, por exemplo, em seguidos cortes de pessoal. Já a Alcatel registrou seguidos prejuízos após anunciar sua fusão com a americana Lucent, em 2006. “A boa notícia é que eles terão tempo para essa integração e para se preparar para a próxima onda do 5G. Se superarem essa etapa, vão ser fortes concorrentes, inclusive na América Latina, onde hoje não possuem uma atuação tão destacada”, disse.

Para Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, a complementaridade de portfólio é um dos ganhos da operação, especialmente no mercado brasileiro. “Após a venda da sua divisão de celulares para a Microsoft, a Nokia assumiu 100% da Nokia Siemens e começou a se recuperar, com a especialização na infraestrutura de telefonia móvel. Já a Alcatel-Lucent tem mais presença em infraestrutura de telefonia fixa”, observou. No entanto, ele ressalta a soma de recursos de P&D como o principal ganho. “As inovações nesse mercado são cada vez mais velozes e fica muito difícil competir se você não tem capacidade de investimento”, disse.

Analista de telecom da IDC, João Paulo Bruder segue na mesma linha. “Mesmo as companhias chinesas como Huawei e ZTE, que antes apostavam em menor custo, estão reduzindo essa lacuna tecnológica. A consolidação é essencial para fazer frente a esses rivais e também a Ericsson”, afirmou.

Com Reuters

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