Por douglas.nunes

Com a receita estagnada e os custos em alta, as dívidas dos maiores clubes de futebol do país chegou a R$ 6,3 bilhões em 2014. A conta é de duas consultorias especializadas em marketing esportivo, que analisaram os balanços financeiros dos 20 times com maior arrecadação no país e vislumbram um cenário caótico caso a política de contratações a qualquer custo não seja revista. Atualmente, apenas cinco entre os 20 clubes analisados se enquadrariam nos limites de custos impostos pela Medida Provisória 671, que institui uma espécie de lei de responsabilidade fiscal para o futebol brasileiro. De todos, a única exceção apontada pelos consultores é o Flamengo, que diminuiu sua dívida e gerou superávit no ano passado.

O valor do endividamento dos 20 clubes ao final 2014 equivale a quase o dobro dos R$ 3,2 bilhões verificados em 2010. “O que vemos é um descontrole total. É a filosofia do vencer a qualquer custo: ninguém está preocupado em fechar no azul e todo mundo está indo para o mesmo buraco”, diz o consultor Amir Somoggi, autor do estudo “Finanças dos Clubes Brasileiros”, que será apresentado hoje no Senado. Ele acrescenta, entre as causas, a “ irresponsabilidade de gestões anteriores ao não recolher impostos e atrasar salários”. “Isso está virando uma bola de neve”,alerta.

O resultado da falta de controle é um déficit somado de R$ 597,5 milhões no ano passado, apesar dos bons resultados de Flamengo e Atlético-PR — que, juntos, tiveram um superávit de R$ 107,5 milhões. Segundo ele, um dos sinais da gravidade da situação são as finanças de São Paulo e Corinthians, clubes até há pouco considerados exemplos de gestão, que fecharam 2014 com déficit em torno de R$ 100 milhões, cada um. O maior déficit (R$ 174,8 milhões) pertence ao clube que tem também a maior dívida (R$ 845,5 milhões): o Botafogo, vice-campeão carioca neste domingo.

“O custo continua crescendo e a receita estagnou nos últimos anos. Como resultado, os clubes fecharam 2014 com o maior déficit e o maior endividamento da história do futebol brasileiro”, reforça o consultor Pedro Daniel, da BDO. Ele vê dificuldade para reverter o cenário este ano, diante da retração econômica, que dificulta as negociações para bons patrocínios. O cenário adverso já foi sentido no ano passado, quando a receita com patrocínios caiu 1,5%, para R$ 452 milhões, apesar do expressivo aumento da rubrica no balanço do Flamengo (alta de R$ 36,6 milhões).

Na média, todos os indicadores financeiros analisados vêm apresentando piora desde 2012, quando os clubes receberam R$ 350 milhões a mais da TV Globo como luvas pela renovação do contrato de transmissão dos jogos. Naquele ano, o resultado somado dos 20 maiores clubes foi positivo em R$ 35,9 milhões. “Ao invés de usar o dinheiro para melhorar suas finanças, os dirigentes torraram tudo. Se continuar neste ritmo, vai chegar a um dia em que as luvas de TV não terão qualquer impacto”, diz Somoggi. A renegociação do contrato ocorre a cada quatro anos.

Segundo os consultores, apenas Fluminense, Vasco da Gama, Flamengo, Goiás e Atlético-PR se enquadrariam hoje no teto de custos estabelecido na MP671, que limita os gastos do departamento de futebol a 70% da receita. A MP, que já foi chamada de Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, tem como objetivo regular a gestão do setor, em troca de novo alongamento das dívidas fiscais dos clubes. Campeão da Copa do Brasil no ano passado, o Atlético-MG tem o pior desempenho no indicador: gastou com o futebol 106% do que arrecadou no ano. Os já citados Corinthians e São Paulo vêm logo atrás, com índices próximos a 100%. Para Somoggi, a presença dos dois paulistas nas pontas negativas do estudo é um sinal da gravidade da situação. “Sempre foram exemplos de boa gestão”, explica.

Por outro lado, o Flamengo é apontado como o modelo a ser seguido. Nos últimos quatro anos, a receita do clube cresceu 88%, ritmo mais acelerado do que o aumento de custos, de 56%.Há três anos, desde a posse da nova gestão, a dívida vem sendo reduzida, passando de R$ 803,7 milhões em 2012 para 697,9 milhões no ano passado, segundo a metodologia usada por Somoggi (o clube fala em R$ 577 milhões). Como resultado, tem sido um dos poucos a conseguir aumento expressivo de receita com patrocinadores — apesar das críticas dos torcedores com relação ao pouco investimento em jogadores.

“Isso é reflexo da transparência e da boa gestão de um grupo que entrou para mudar o paradigma. O Flamengo fala a língua que o mercado quer ouvir”, diz Somoggi. “Mas a regulação do setor tem que mudar. Do jeito que está, premia a má gestão”, finaliza.

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