Por douglas.nunes

Em meio à combinação explosiva de fatores como o crescimento urbano desordenado e uma infraestrutura de transporte saturada e deficiente, as horas preciosas perdidas diariamente no trânsito caótico são hoje uma realidade para milhões de pessoas em todo o mundo. É justamente nesse cenário congestionado que a Ford enxerga uma oportunidade para ocupar um novo espaço. Mais que uma fabricante automotiva, a montadora americana não está medindo esforços para se transformar em uma empresa de serviços de mobilidade, o que abre espaço para um campo amplo de oportunidades, de aplicativos com informações em tempo real até serviços relacionados ao compartilhamento de carros e à integração de veículos ao sistema de transporte público das cidades. E a rota para alcançar esse objetivo está sendo traçada a partir dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e na aproximação com o universo da tecnologia.

“A inovação sempre esteve no DNA da Ford. Nossa ideia é usar esse componente para facilitar a mobilidade e a vida das pessoas”, afirmou Ken Washington, vice-presidente de Pesquisa e Engenharia Avançada da Ford, durante evento de inovação promovido pela montadora em São Paulo. “Nós concebemos um mundo em que os veículos se comunicam uns com os outros e com a infraestrutura das cidades, onde os carros não têm um único proprietário e no qual as pessoas compartilham veículos e outras formas de transporte em seus deslocamentos diários”, observou.

Sob esse direcionamento, Washington apontou quatro grandes tendências que estão guiando as estratégias de inovação da Ford: o crescimento da população expresso em mais de 25 megacidades no mundo; o avanço da classe média e, por consequência, o aumento dos compradores potenciais de veículos; os problemas ambientais decorrentes desse cenário; e as mudanças de comportamento dos consumidores, especialmente sob a influência da evolução tecnológica. “As pessoas de todas as gerações estão aproveitando esses avanços e esperam ter mais alternativas de mobilidade. E o Waze é um bom exemplo disso”, afirmou. “Nesse contexto, é difícil saber se no futuro as pessoas vão comprar, compartilhar ou apenas usar um veículo sob demanda”, disse.

Como parte desse movimento, a Ford investiu recentemente na expansão de seu centro de inovação em Palo Alto (EUA), no Vale do Silício, berço de grande parte das empresas mais relevantes de tecnologia e também de importantes universidades diretamente ligadas ao ambiente de inovação. “Somos como uma start-up nesse universo. A ideia é buscar o envolvimento com essa comunidade e trabalhar em colaboração com as universidades e as companhias de tecnologia. Todas as inovações estão lá”, explicou. Inaugurada em 2012, a unidade está conectada ainda com outros centros similares da Ford, como por exemplo, o da Alemanha.

Em linha com essa aproximação, a Ford tem marcado presença em eventos que se destacam no calendário do mercado de tecnologia. Dentro dessa abordagem, a Ford aproveitou a última edição da Consumer Electronic Show, realizada em janeiro, em San Francisco (EUA), para anunciar uma das suas principais iniciativas de inovação. Batizado de FordSmart Mobility e com a adoção de recursos como softwares, sensores para direção autônoma e mapas 3D com informações em tempo real, o plano vai envolver inicialmente 25 projetos de mobilidade em todo o mundo. Essas frentes compreendem vertentes como conectividade, veículos semiautônomos e autônomos, big data e, na base de todas essas ações, a experiência do usuário.

O plano já tem algumas iniciativas em andamento. Um dos projetos está sendo realizado em Londres, com foco no uso de veículos sob demanda. A partir de uma frota que reúne carros elétricos e equipados com motor EcoBoost, a montadora está oferecendo um serviço pelo qual os usuários podem reservar um veículo de acordo com a sua necessidade e pagar pelos minutos gastos no trajeto. Todo o processo é feito por meio de um aplicativo. Entre outras questões, a ideia é analisar como essas práticas podem aprimorar os serviços de compartilhamento de carros e, ao mesmo tempo, reduzir o congestionamento e a poluição.

Anunciada no Mobile World Congress (MWC), realizado em Barcelona, o projeto Handle on Mobility é mais uma ação em curso. O objetivo da pesquisa é avaliar como bicicletas elétricas — compatíveis com qualquer veículo da Ford, de automóveis a caminhões — podem ser usadas integradas aos carros e também ao sistema de transporte público. A solução conta com o apoio de um aplicativo para iPhone, que traz informações como clima, trânsito, sistema de transportes e melhores rotas. “Mais que uma solução restrita ao usuário, imagine uma empresa que possa oferecer serviços integrando todo esse modal”, disse o executivo.

Batizado de Big Data Drive, uma outra iniciativa envolve mais de 600 funcionários voluntários da Ford em Dearborn (EUA), sede da montadora. A empresa está usando sensores nos carros desses colaboradores para coletar informações sobre o deslocamento diário dessas pessoas. A partir das informações, a proposta é identificar padrões de comportamento na direção para aprimorar os veículos. “Se as pessoas estiverem dispostas a compartilhar os seus trajetos, teremos uma boa base para personalizar a experiência de cada usuário”, disse.
O Brasil também está incluído no mapa de inovação da Ford. O país sediou uma das etapas do hackathon global promovido pela empresa, para estimular os desenvolvedores a criar aplicativos para o Sync, sua plataforma de comunicação, que hoje já está instalada em 12 milhões de veículos em todo o mundo. Nesse ano, a montadora também fechou uma parceria com a PUC-Rio, para a realização de pesquisas sobre a experiência dos usuários. “Antes de analisar como melhorar um produto, é essencial estudar o comportamento das pessoas e desenvolver soluções a partir dessas respostas”, disse Marcio Alfonso, diretor de Engenharia da Ford na América do Sul.

O executivo comentou ainda sobre os projetos da Ford ligados aos carros semiautônomos — a montadora já ultrapassou a marca de 10 milhões de veículos vendidos nessa categoria em todo o mundo — e a evolução das pesquisas ligadas aos carros autônomos. “O projeto está avançando mais rápido do que imaginávamos. Mas essa é uma questão que não depende apenas da indústria, mas também da infraestrutura das vias para suportar essa tecnologia”, afirmou.
Com o avanço tecnológico, Alfonso destaca que o grande desafio do setor hoje é encontrar um equilíbrio para que todo esse arsenal seja acessível a grande parte dos consumidores. “Essas tecnologias já não estão mais restritas ao mercado de luxo. Pouco a pouco, estamos conseguindo estender esses recursos a outras linhas, inclusive de entrada”, observou.

A Ford aproveitou o evento para mostrar um dos exemplos dessa abordagem. A companhia apresentou o Ford Focus 2016, que tem previsão para ser lançado no mercado brasileiro no segundo semestre. A nova versão traz o AppLink, recurso de comando de voz pelo qual o motorista consegue acessar — sem usar as mãos e a partir do emparelhamento de seu smartphone — uma série de aplicativos, como guia de restaurantes, localização de estacionamentos e postos de combustíveis, e serviços de de música.

Outra novidade é um sistema de estacionamento automático, capaz de manobrar o carro em vagas paralelas e perpendiculares, sem que o motorista precise mexer no volante. O pacote inclui um assistente de frenagem com sensores que monitoram o tráfego e reduzem a velocidade no caso de qualquer emergência. O novo Focus trará ainda um assistente de emergência, que fará uma ligação automática para serviços como o SAMU ao identificar corte de combustível ou o acionamento dos airbags.

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