Por parroyo

Depois de perder 10.406 postos de trabalho nos primeiros três meses do ano, sob efeito da crise causada pelas denúncias de corrupção na Petrobras, a indústria naval brasileira corre o risco de perder mais 20 mil vagas até o fim deste mês, de acordo com projeção da Associação Brasileira das Empresas de Construção Naval e Offshore (Abenav). A paralisia no setor de óleo e gás — em decorrência dos desdobramentos da Operação Lava Jato — obriga fornecedores a diversificar sua atuação para outros mercados, como defesa, energia e até alimentos. Projeção da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) contabiliza R$ 250 milhões em dívidas da indústria com fabricantes de bens de capital.

“A maior parte, cerca de 90%, desse total é do segmento de óleo e gás”, afirma Marcelo Campos, vice-presidente da Abenav e presidente da Câmara Setorial de Equipamentos Navais e Offshore da Abimaq. Diretor da Roxtec Brasil, empresa de vedações de cabos flexíveis e tubulações, Campos iniciou em julho do ano passado um movimento de diversificação que se intensificou nos últimos meses. “Estamos contratando gente para atender os mercados de água e esgoto, telecomunicações e data centers”, exemplifica o executivo. Na Roxtec, a participação dos segmentos naval e de óleo e gás na receita, que chegou a atingir 80% no auge, atualmente está em torno de 50%.

“Não dá para ter tantos estaleiros como existem hoje no país, ainda mais com a redução no conteúdo local que já está acontecendo”, diz Campos. Segundo o vice-presidente da Abenav, a instituição projeta um corte de 30 mil postos de trabalho até o fim deste mês no setor de construção naval. A estimativa mais recente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) é de que havia 72.066 trabalhadores empregados nos estaleiros brasileiros em março. No fim do ano passado, o setor havia atingido o patamar de 82.472 funcionários.

Conforme atestam dados do Sinaval, os números de janeiro a março representam a primeira queda em 15 anos no nível de emprego. O cenário adverso combina efeitos da crise na Petrobras com a baixa nos preços do petróleo e as dificuldades financeiras enfrentadas pela Sete Brasil — empresa pré-operacional criada para gerenciar a aquisição de 29 sondas para a exploração do pré-sal. “Existem encomendas com entregas previstas até 2020, mas agora, em 2015, é necessário definir a próxima etapa de encomendas para evitar vazios na produção e dispensa de pessoal. Os segmentos de navegação fluvial e apoio portuário estão com mercado favorável, com demanda em vista”, informou o Sinaval, em nota.

Fundada há cinco anos, a Radix nasceu como empresa de engenharia e software voltada para o setor de óleo e gás, mas avançou a partir de 2013 em direção aos mercados de defesa, engenharia de eventos esportivos e segurança de alimentos, além de abrir um escritório nos Estados Unidos. “Não dá para diversificar da noite para o dia, em dois meses”, alerta Luiz Rubião, presidente da companhia. “Demora pelo menos dois anos para colher os frutos”. Embora a aposta em outras frentes de negócios seja anterior à Lava Jato, Rubião conta que a crise atual no mercado de óleo e gás deu novo impulso à estratégia da Radix. “Foi o golpe de misericórdia. O que estava vindo devagar, parou”, acrescenta.

A companhia ainda negocia a assinatura de seu primeiro contrato na área de defesa e segurança, na qual oferece produtos de vigilância e supervisão, entre outros. A guinada da Radix também levou a companhia ao nicho de projetos de câmaras de refrigeração para conservação de alimentos. E, ainda, ao mercado de sistemas de automação e recuperação de falhas para garantir a segurança na produção de alimentos.

O mesmo não aconteceu com a Hemir, fornecedora de serviços para os setores naval e offshore. O término de um contrato com a Petrobras e a derrota numa licitação reduziram o faturamento em um terço e o número de empregados pela metade (de 180 para 90). “Voltamos a procurar clientes antigos, de menor porte”, diz Bruno Labouriau, sócio da Hemir. Uma das alternativas encontradas pela companhia, conta ele, foi o fornecimento de mão-de-obra técnica, com prestação de serviços de instrumentação e calibração.

Você pode gostar