'Esperamos um novo recorde de vendas a cada ano até 2020'

Sócio-gerente da consultoria Focus2move.com, Carlos Simongini afirma que a recuperação do mercado brasileiro de automóveis até o nível atingido em 2012 está prevista para 2019

Por O Dia

A forte retração no mercado brasileiro de automóveis contrasta com um cenário totalmente oposto em nível global. Enquanto o país deve amargar a maior queda nas vendas de sua história, a expectativa é que — no mundo — a indústria automotiva quebre sucessivos recordes ao longo dos próximos cinco anos. As projeções são da consultoria especializada Focus2move.com, que analisa dados de mais de 150 mercados. “A recuperação até o nível atingido em 2012 (3,6 milhões) está prevista para 2019”, diz Carlo Simongini, sócio da consultoria, referindo-se ao Brasil.

Em 2015, o mercado automobilístico brasileiro terá o pior ano da sua história?

Nos primeiros quatro meses do ano, o mercado de veículos do Brasil (carros e comerciais leves) caiu 18% em relação ao ano anterior. Nossa equipe de pesquisa projeta um volume de 2,85 milhões de unidades para o ano todo. Em termos de queda este ano, provavelmente, será o pior da história, enquanto (em termos) de volume será o pior ano desde 2008.

Há alguma previsão de quando o mercado brasileiro começará a melhorar?

A retração atual foi gerada por cenários negativos simultâneos. O primeiro fator-chave é a súbita quebra na expansão da economia brasileira, com Produto Interno Bruto (PIB) tendo crescido apenas 0,1% em 2014. A maior economia da América Latina desacelerou drasticamente desde 2010, quando teve um crescimento de 7,6%. E os dados mais recentes sugerem que a economia continua a piorar. Na última década, o governo usou o setor automotivo para alavancar o PIB nacional e para fazer caixa com taxas e impostos sobre veículos, componentes e a indústria local de biocombustíveis. O sistema de financiamento automotivo foi ampliado com uma cota relevante de crédito de alto risco emitido. O Inovar-Auto (Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores), divulgado no fim de 2012, era pouco realista e agora está gerando uma queda da demanda, enquanto a capacidade do setor automotivo brasileiro será ampliada fortemente nos próximos três anos. Por fim, em 2014, a redução de impostos instituída pelo Governo, também por razões políticas, devido às eleições de outubro, manteve o mercado em alta. Mas, ao retardar a elevação da alíquota de imposto, os consumidores foram estimulados (pelo governo) a antecipar suas compras e a demanda em 2015 está muito baixa. Devido à relevância da queda, estimamos que o mercado vai se estabilizar durante o primeiro semestre 2016. Já a recuperação até o nível atingido em 2012 (3,6 milhões) está prevista para 2019.

Land Rover e Audi e outros fabricantes apostam que a demanda por carros premium no país terá expansão significativa no longo prazo. Na situação atual da economia brasileira, não é um risco contar com o crescimento no longo prazo?

Sim. Em 2015, o mercado brasileiro será o sétimo maior do mundo, perdendo quatro posições em relação ao resultado recorde alcançado em 2012. Mas, considerando apenas o segmento premium, o mercado (brasileiro) ocupa a 20ª posição e não está crescendo rápido como vários outros. No entanto, essa questão diz respeito a toda a América do Sul.

O mercado brasileiro atraiu diversas montadoras, mas — apesar da entrada de novos players — os preços não caíram dramaticamente. Falta competição no mercado nacional?

Sim! Até agora, o mercado tem sido controlado por três marcas: Fiat, Volkswagen e Chevrolet, que investiram em produção local antes de outras montadoras. As elevadas tarifas de importação limitaram oportunidades para outros. O objetivo do Inovar-Auto era abrir mercado, mas este é um longo caminho.

A China continuará ditando o ritmo do crescimento mundial no mercado automotivo?

De cada quatro carros vendidos no mundo, mais de um é vendido na China. O país vai representar mais de 30% do mercado global em 2020. Mas hoje dois mercados ditam o ritmo do avanço tecnológico na indústria, Estados Unidos e Alemanha. Nossa equipe de pesquisa estima que em 2020 a China será líder também em soluções tecnológicas.

As marcas chinesas terão relevância no mercado global num futuro próximo?

Nos últimos cinco anos, várias marcas chineses começaram a exportar. Elas focaram em mercados com regras menos rigorosas, tanto em termos de emissões como de segurança. Por causa disso, já são fortes em vários países da América do Sul. Na minha opinião, a lacuna chinesa hoje não tem a ver com qualidade, mas com estilo e com a forma de abordar os clientes.

No ano passado, as vendas de automóveis no mercado global atingiu o maior nível da história. É correto para prever um novo recorde para este ano?

Esperamos um novo recorde a cada ano até 2020. Em 2015, o mercado vai atingir 90 milhões de unidades, enquanto o patamar de cem milhões será alcançado em 2018.

Qual a projeção para 2016?

Estimamos que o mercado mundial chegue a 92,5 milhões de unidades.

Os carros elétricos são uma tendência irreversível? E o que dizer carros autônomos (sem motorista)?

No futuro, após 2020, os automóveis elétricos serão as soluções definitivas para reduzir as emissões diretas de CO2 (dióxido de carbono)por veículos em países onde os custos da eletricidade sejam razoáveis. Mas não serão as únicas soluções. Biocombustíveis aperfeiçoados, GNV (gás natural veicular) e GLP (gás liquefeito de petróleo) vão expandir suas participações na frota de veículos. Na verdade, a verdadeira solução para reduzir a emissão de CO2 é o carro híbrido, levando-se em consideração que mais de 20% das vendas da Toyota na Europa em 2014 foram de carros híbridos.

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