Por monica.lima

São Paulo - Depois de formalizar a aquisição da aérea portuguesa TAP, na quarta-feira passada, em um negócio de € 354 milhões fechado por meio do consórcio Gateway, em Portugal, David Neeleman desembarcou 24 horas depois no Brasil e encerrou a semana com a assinatura de uma parceria estratégia com a United Airlines, que irá render à aérea brasileira US$ 100 milhões.

Pelo acordo, a United, ao injetar recursos na Azul, passa a ter 5% da empresa brasileira e direito a um assento no Conselho de Administração da Azul. Neeleman permanece com os 67% de participação e CEO da empresa. Segundo ele, nada muda na composição acionária porque a United está ingressando na companhia brasileira por meio de uma injeção de capital. O negócio ainda precisa da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Em 2011, a Delta Airlines fez uma operação semelhante na Gol e ficou com uma fatia de 3% na companhia.

A parceria vai reforçar a presença da United no Brasil, principalmente nos hubs — centros de distribuição de voos — do Nordeste, onde suas concorrentes Delta Airlines e American Airlines já atuam, e também em Campinas, onde a Azul tem forte presença e ainda não há voos da United em operação.

No caso da Azul, além de ampliar sua presença no mercado internacional a partir dos hubs da United em Chicago, Denver, Houston, Los Angeles, Nova York / Newark, São Francisco e Washington, os recursos que entram no caixa da empresa podem ajudar a fazer frente a gastos futuros — entre eles o mais recente baque no setor, com o fim da desoneração da folha de pagamentos, anunciada na sexta-feira pelo governo e que, segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), vai elevar em R$ 200 milhões os custos da aéreas no Brasil. Neeleman, no entanto, afirmou que o dinheiro que virá da United “será colocado no banco”, sem dar mais detalhes sobre o destino do montante.

“Estamos muito animados com este capítulo importantíssimo para a Azul. E queremos tudo. Vamos juntar a maior malha do Brasil e nossa força no mercado regional, com a maior malha do mundo. Vamos voar para mais de 450 destinos com mais de seis mil voos diários. Nossos clientes poderão ir de Santos Dumont a Chicago ou de Porto Alegre a Las Vegas, por exemplo.Quanto ao dinheiro, todo mundo gosta de dinheiro. Mas nesse momento não foi esse o principal motivo. Não precisamos do dinheiro nesse momento”, disse ele, que não quis comentar sobre a projeção de aumento de participação de mercado da Azul no Brasil.

Hoje, a empresa é a terceira maior companhia do país. Segundo dados da Abear, a fatia de mercado da Gol em maio foi de 36,87%, com a liderança do setor doméstico, e a da TAM, 36,46%. Azul ficou com 17,15% de market share e a Avianca, 9,52%. No mercado internacional, a TAM ficou com 80,25% do mercado, a Gol com 12,1%, a Azul chegou a 7,59% e a Avianca teve participação inferior a 1%, também segundo a Abear.

Jim Compton, vice -chairman e CRO da United Airlines, afirmou que o Brasil é um mercado importante para a malha de voos internacionais de sua companhia “Esta parceria reforça nossa presença no país. Juntas, vamos oferecer aos nossos clientes mais conectividade e conveniência dentro e fora do país”, disse Compton.

A possibilidade de ampliar o percentual de participação da United na Azul não está totalmente descartada mas, segundo John Rainey, responsável pelo setor de Finanças da United, o objetivo agora é tirar o maior proveito possível da parceria.

O acordo atribui um valor de mercado à Azul de cerca de US$ 2 bilhões, uma avaliação mais generosa do que a de sua rival Gol, cujo valor na bolsa com base no preço de sua ação no fechamento da quinta-feira era próximo de US$ 700 milhões. A Gol tem apenas um terço do capital no mercado, todo ele distribuído em ações sem direito a voto.

Ao ser perguntado sobre o IPO da Azul, que já foi adiado por três vezes, Neeleman comentou que o momento ainda não é o ideal. “Temos a intenção de fazer o IPO mas vamos esperar o melhor momento do mercado brasileiro para fazer isso”, afirmou Neeleman.

A parceria com a United também vai dar à Azul e United sinergias em seus programas de fidelidade. Os programas TudoAzul e MileaagePlus terão acúmulo de pontos e resgates bilaterais, ou seja, os clientes poderão voar pelas duas empresas usando a pontuação acumulada em cada uma delas. A venda de bilhetes deverá acontecer nos próximos 30 dias.

“Teremos sete milhões de membros do nosso programa de fidelidade ”, disse Neeleman.

Com relação à TAP, Neeleman comentou que as sinergias de voos com a Azul deverão começar em breve, pode meio de um code-share (acordo de compartilhamento de voos). Ele afirmou que a TAP deverá ter mais oito a dez destinos no Brasil, onde construiu uma malha que tem 26% dos passageiros que fazem as rotas entre o país e a Europa.

“Vamos olhar mais parcerias e mais destinos para a TAP no Brasil. A capilaridade é o jogo”, disse ele, que comentou também sobre a participação do BNDES na operação da TAP.

“O banco é uma fonte de financiamento que poderá acontecer por meio da Azul. O banco tem interesse, nós temos interesse. Mas ainda são assuntos que serão discutidos no futuro. Mas são fontes de financiamento que podem ajudar”, disse ele, que também comentou sobre a permanência de Fernando Pinto na TAP.

“Se não fosse ele ter ingressado na TAP há 15 anos, ela já teria desaparecido. Fernando Pinto fará parte da TAP por muito tempo”, finalizou, sem adiantar qual será o cargo do atual presidente da aérea portuguesa no futuro.

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