Operação móvel virtual conquista até os Correios

Estatal se prepara para lançar operadora virtual no primeiro trimestre do próximo ano. Número de linhas dessas empresas cresceu 20,6% nos cinco primeiros meses de 2015

Por O Dia

Rio - Os Correios preparam para o primeiro trimestre de 2016 o lançamento de sua operadora móvel virtual (MVNO, na sigla em inglês). Longe de ser uma iniciativa isolada, o projeto — em fase de refinamento do modelo de negócios e da minuta do contrato — é um indicativo da vitalidade do segmento. Nos cinco primeiros meses do ano, a base das três operadoras móveis virtuais em atuação no país aumentou 20,6%, de acordo com dados compilados pela consultoria Teleco. As MVNOs são operadoras que não contam com licenças do espectro de radiofrequências nem com infraestrutura de rede, arrendada de outras empresas.

De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), são cinco as empresas autorizadas hoje a prestar serviços como MVNO. A brasileira Porto Seguro Telecomunicações, a Vodafone Brasil (parceria entre a empresa britânica e a Datora Telecom) e a Terapar já operam no mercado. Juntas, as três saltaram de um patamar de 274 mil acessos móveis no fim do ano passado, para 330,9 mil no fim de maio, conforme indicam dados da Teleco. A francesa Sisteer e a britânica Virgin Mobile receberam sinal verde da agência reguladora mas ainda não estrearam no mercado brasileiro. A Alô Serviços de Telefonia Móvel, que tem como foco fiéis da igreja Assembleia de Deus, poderá atuar mas não como “autorizada” e sim como “certificada” (uma espécie de revendedora).

“No Brasil, as empresas ainda estão mais preocupadas em quanto vão lucrar com uma operadora móvel virtual e não com a quantidade de produtos a mais que vão vender, usando a MVNO como canal de relacionamento”, avalia Daniel Fuchs, diretor de Tecnologia da Informação da Vodafone Brasil. No caso dos Correios, o objetivo principal do projeto é potencializar a rede de atendimento da companhia em todo o Brasil, segundo informou a assessoria de imprensa da estatal, “além de complementar as ofertas de serviços de comunicação da empresa.”

No último dia 23, foi realizada audiência pública na qual o projeto de operadora móvel virtual dos Correios foi apresentado às prestadoras do Serviço Móvel Pessoal (SMP) — grupo que engloba as principais operadoras do mercado celular. As observações e sugestões registradas na audiência vão servir de base para o refinamento do modelo para seleção da empresa parceira dos Correios no projeto. A escolha será feita “por meio de chamamento público”, informou a estatal.

Lançada em 2012, a operadora Porto Seguro Conecta viu sua base de usuários aumentar de 271,3 mil no fim de 2014 para 310,2 mil em maio, um incremento de 14,3%. Em junho, a empresa — criada para aprimorar o relacionamento com os clientes da seguradora do grupo e para fidelizá-los — registrou recorde de adições, alcançando o patamar de aproximadamente 370 mil linhas móveis. Desse total, cerca de 330 mil linhas são destinadas a serviços de comunicação entre máquinas (M2M, na sigla em inglês): rastreamento de veículos segurados pela companhia.

Em fevereiro de 2014, os clientes de telefonia móvel da Porto Seguro Conecta correspondiam a 5% da base. Hoje, esse percentual é superior a 10%. A expansão é resultado — afirma Tiago Galli, superintendente da Porto Seguro Conecta — de uma estratégia mais agressiva de pacotes de serviços. No mês passado, a MVNO lançou um plano com franquia ilimitada de voz para qualquer operadora e quatro pacotes distintos de dados, entre um e dez gigabytes (GB). “Não queremos que o nosso cliente fique contando minutos”,justifica Galli. “Isso (oferecer um produto distinto) faz da experiência dele algo diferente.”

A ideia de tratar o serviço de voz como uma commodity já é realidade nos mercados da Europa e dos Estados Unidos, mas ainda não fincou pé no mercado brasileiro de telefonia móvel. Na Porto Seguro Conecta, o consumo de dados pelos clientes é crescente, seguindo a tendência geral do mercado, enquanto o total de minutos de voz gastos pelos consumidores se mantém estável, mas num patamar alto. Para o segundo semestre deste ano, a Porto Seguro Conecta prevê o lançamento do seu serviço 4G, simultaneamente, nas 220 cidades onde atua. A empresa, que utiliza a rede da TIM, tem cobertura nacional mas oferece seus serviços nas cidades de DDD 11, 12, 13, 19 e 21.

Além dos Correios, a implantação de uma MVNO também é objeto de estudo de outras duas empresas controladas pelo governo: o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. O BB informou em nota que “segue sua avaliação sobre MVNO”, mas “sem nenhuma ação para lançamento de operação deste tipo no momento”. Já a Caixa — por meio de sua assessoria de imprensa — disse que “o tema já foi objeto de discussão e avaliação interna, porém não há previsão de implantação” da operadora móvel virtual.

O mercado potencial para esse tipo de empresa é amplo, abrangendo desde serviços de voz e dados tradicionais, ao uso de chips em boias marítimas e tornozeleiras eletrônicas para monitoramento de réus e presidiários — duas áreas de negócios exploradas pela Vodafone Brasil. “Num cenário macroeconômico desfavorável, a Internet das Coisas é um segmento mais resiliente”, afirma Fuchs, diretor de TI da operadora móvel virtual.

Não só no Brasil, mas em toda a América Latina as MVNOs se transformaram em tendência, sustenta José Otero, diretor para a América Latina e Caribe da 4G Americas, que reúne operadoras e fabricantes do setor de telecomunicações. “A indústria amadureceu e muitos players começam a ver as MVNOs como parceiras no crescimento do mercado e não como concorrentes”, constata.

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