Por diana.dantas

Peço licença aos leitores para tratar de um tema que foge ao objetivo desta coluna que é o de abordar as relações entre cinema e economia. Diante dos fatos ocorridos ao logo da semana, não há como silenciar-se, como cidadão e sobretudo jornalista. O atentado contra os profissionais da publicação francesa Charlie Hebdo, em Paris, abre o ano de 2015 sob o signo do mais violento, covarde e indefensável irracionalismo. Uma verdadeira bomba que estilhaça os alicerces da liberdade de expressão.

Fundado em 1970, o Charlie Hebdo destacou-se como uma publicação libertária, sem laços partidários. Seu instrumento sempre foi o humor. Seguia à risca a máxima nietzchiana de que o homem sem humor há muito já entregou a alma ao diabo. Tornou-se referência mundial, impactando inclusive no Brasil, onde mestres como Jaguar, Ziraldo e Fortuna jamais omitiram seu apreço pela publicação que tinha no Pasquim, fundado um ano antes, uma espécie de alma gêmea.

Um dos baluartes da publicação, o cartunista Georges Wollinski, fez história por seu trabalho de alto teor erótico e de apurada crítica social. Tornou-se íntimo de Ziraldo, a quem fazia questão de visitar todas as vezes que vinha ao Brasil. De origem tunisiana, Wollinski era um crítico implacável das práticas medievais e obscurantistas do islamismo radical. Nem por isso poupava judeus e católicos de sua pena ferina. Na última quarta-feira, aos 80 anos, a brilhante carreira de Wollinski foi interrompida pelos tiros disparados por terroristas.

A fúria dos terroristas tem como objetivo claro inibir as reações do ocidente às práticas extremistas. Porém, a irracionalidade só infla os que apoiam a islamofobia e a intolerância absoluta contra os muçulmanos. É a prática autoritária por excelência dos que querem compensar a falta de argumentos com ações violentas e intimidadoras.

O que se viu em Paris, logo após o ataque, foi uma cidade sitiada pelo medo. Turistas trancados em seus hotéis e a população temerosa de seguir a rotina. O terror afirma-se assim, de forma insidiosa e invasiva. Como se pauta pela lógica da surpresa, do inesperado, e não determina campo de batalha pode estar em toda parte mesmo quando não está em lugar algum.

As autoridades e a sociedade em geral devem reagir de forma contundente à prática do terrorismo. Teremos que pagar a conta em filas cada vez maiores e inspeções cada vez mais rigorosas nos aeroportos, museus, cinemas, restaurantes e demais espaços públicos. Faz parte do jogo, afinal o alerta já não sai do vermelho há um bom tempo. Mas isto é detalhe comparado à necessidade de entendermos que o fundamentalismo está espalhado por todos os lugares, inclusive no Brasil, onde cresce de forma silenciosa e fragmentada. Não se deve discriminar nenhuma religião. Por outro lado, práticas que atinjam a integridade do estado laico merecem ser rechaçadas, combatidas e punidas com rigor intransigente. Em nome de todos.

Aos mortos de quarta-feira, dedico a lembrança da reação do grande Antônio Maria, que após ser espancado e ter os dedos das mãos pisoteados por meganhas descontentes com sua coluna, publicou: "Que bobos! Eles pensam que os jornalistas escrevem com as mãos".

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