Por diana.dantas
Anunciada ontem, a lista de concorrentes ao Oscar 2015 confirmou o filme “Relatos Selvagens” como forte candidato ao prêmio na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Não será uma disputa fácil. A concorrência reúne nomes de peso, como o russo “Leviatã” e o polonês “Ida”, este último apontado como favorito depois de receber o Globo de Ouro no último domingo, batendo inclusive o filme argentino. Mas nada ofusca a trajetória impressionante de “Relatos Selvagens”, que pode levar o terceiro Oscar para a Argentina, já vencedora com “A História Oficial” e “O Segredo dos seus Olhos”.
Lançado mundialmente na Mostra Competitiva do Festival de Cannes de 2014, “Relatos Selvagens” teve uma recepção calorosa e despertou o interesse do mercado internacional. Experiente diretor de séries para a televisão, Damián Szifron, em seu primeiro longa-metragem leva a tarimba dos relatos rápidos e de comunicação imediata para os seis episódios que compõem este filme que, combina ação, violência gráfica, comentário social, humor e cinema da melhor qualidade. Fosse Tarantino o presidente do júri em Cannes, a Palma estaria nas mãos dos "hermanos".

O roteiro consegue driblar o clichê de que filmes em episódios são irregulares. À exceção do estrelado por Ricardo Darín, uma pertinente crítica ao sistema de controle de trânsito argentino, porém de final questionável, os demais episódios sustentam-se pelo impacto imediato e pela capacidade de convencer o espectador em um curto espaço de tempo do potencial de pequenas histórias, como o conto anedótico que antecede os créditos. A crítica à Argentina contemporânea aparece de forma subliminar na violência gráfica e mais explicitamente nos episódios que criticam os costumes locais, a intransigente burocracia, a corrupção endêmica e a crise de valores morais capaz de transformar um atropelamento fatal num debate sobre ética e diferença de classes.

Produzido por Pedro Almodóvar e seu irmão, “Relatos Selvagens” tem uma impressão visual próxima a dos filmes do espanhol, com um requinte de linguagem cinematográfica expresso através de subjetivas inesperadas, grandes planos, travellings circulares, esmero fotográfico e decupagem bastante elaborada. A trilha de Gustavo Santaolalla dá o refinamento definitivo a este filme que tem no último episódio sua “pièce de resistance”. Uma festa de casamento chique que aos poucos revela o espetáculo da decadência das convenções sociais. Nelson Rodrigues aplaudiria. Que venha o Oscar.
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