Por diana.dantas
"A Teoria de Tudo", filme inglês de James Marsh, que estreou ontem nos cinemas brasileiros, é composto de átomos que constituem a fórmula perfeita para seduzir os acadêmicos de Hollywood responsáveis pela premiação do Oscar. Trata-se do que os americanos chamam de uma “biopic”, ou seja, uma mescla de biografia com épico. O protagonista é nada mais nada menos do que Stephen Hawking, cientista inglês mundialmente conhecido por seus estudos e descobertas sobre a origem do universo. Doutor em Cosmologia pela Universidade de Cambridge, Hawking foi diagnosticado ainda jovem como portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença generativa que paralisa gradativamente os músculos mas que não afeta o cérebro. Aos 21 anos, deram-lhe dois anos de vida. Hoje, aos 72, passa bem, obrigado.
Portanto, “A Teoria de Tudo” reúne “de tudo” que um filme precisa para se consagrar na corrida ao Oscar: um personagem mundialmente conhecido, sua luta pela superação física, a exuberância dos jardins de Cambridge, um pungente drama familiar, a discussão cativante sobre a origem do universo e a existência de Deus e a interpretação consagradora de Eddie Redmayne no papel de Hawking. Uma história edificante, enfim. Mas apesar de todas as peças previsíveis da engrenagem de um filme convencional, “A Teoria de Tudo” consegue surpreender pelos átomos de seus elementos terem sido retirados do livro “Travelling to Infinity - My Life With Stephen” (Viajando no Infinito - Minha Vida com Stephen), escrito por Jane Hawking, mulher do cientista.

O que poderia ser uma narrativa em linha reta, seguindo preguiçosamente os passos de uma carreira de sucesso somada a uma exemplar vitória pessoal, ganha contornos sinuosos ao focar-se na história de amor entre Stephen e Jane, criando assim um diferencial que particulariza o filme. Jane é católica fervorosa e sua vocação à bondade aliada a um certo espírito juvenil fazem dela uma virtuosa, capaz de mesmo sabendo do diagnóstico terminal de Stephen casar-se com o cientista assumidamente ateu e tornar-se mãe.

O tempo, a progressão da doença, o prejuízo de seus estudos e a anulação da vida sexual levarão Jane a uma rotina de irritabilidade, libido reprimida e muita culpa. Felicity Jones, que lembra muito a atriz Mel Lisboa, conduz com dignidade o desafio de interpretar Jane e aos poucos a história de seu personagem ganha mais interesse do que a do próprio Stephen. Mereceu a indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

A solução da equação romântica proposta pelo filme gerou a inevitável controvérsia entre fato e versão. E é provável que os fatos vençam. Stephen não teria sido tão tolerante com o sexo represado da ex-esposa, o sucesso lhe teria subido a cabeça e o motivo do divórcio seria um caso com sua enfermeira. São questões provavelmente adocicadas para tornar “A Teoria de Tudo” mais palatável ao grande público. Ainda assim, os dados lançados ao espectador pelo filme não costumam ser usualmente jogados pelos grandes produtores. Bem ou mal, “A Teoria de Tudo” questiona as certezas religiosas, desafia o ideal da bondade absoluta, aponta a fragilidade do matrimônio padronizado e nos faz pensar sobre o tempo que o tempo tem. Não é pouco. E talvez seja muito para ganhar o Oscar.
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