Por monica.lima

Dois documentários, bastante distintos entre si, contribuem para mostrar a grandeza da obra e da vida de um dos maiores fotógrafos mundiais: Sebastião Salgado. São eles, "O Sal da Terra", de Wim Wenders e Juliano Salgado, e "Revelando Sebastião Salgado", de Betse de Paula. Juliano, filho do fotógrafo, embora não assine os dois longas, também teve presença marcante no filme de Betse, servindo como elo para vencer o recolhimento paterno.

“O Sal da Terra”, que chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Documentário este ano, é, dos dois, o mais ambicioso. A Juliano coube acompanhar o pai em algumas de suas viagens para retratar o espetáculo da natureza que compõe um de seus mais famosos álbuns, “Gênesis’. São impressionantes as imagens que registram as estratégias físicas de Salgado para capturar, sem assustar, flagrantes de animais em seu convívio intenso com o habitat natural. Salgado, que jamais permitiu a um diretor registrar suas ações em trabalho, abriu justa e honrosa exceção ao filho, que conseguiu mostrar o pai em ação sem prejudicar o seu trabalho.

Se a Juliano coube flagrar o lado digamos assim “físico” do trabalho de Salgado, coube a Wenders encadear mais uma interpretação “teórica”, conduzindo entrevistas em que Salgado conta sua história mas sobretudo faz uma análise honesta e despojada de vaidade de sua invejável trajetória como fotógrafo e ser humano. Salgado fala de como seus trabalhos em lugares onde a desigualdade social prevalece, como Etiópia e Ruanda, afetaram sua alma, deprimiram-no e fizeram-no refletir sobre sua obra, acusada injustamente de estetizar a miséria. Da reflexão originou-se um novo rumo que levaria à belíssima celebração do planeta Terra que é “Gênesis”. O epílogo de “O Sal da Terra” mostra Salgado de volta à sua Minas Gerais natal, onde nas terras áridas da família ele a mulher Lélia fundaram o Instituto Terra, hoje uma área de vasta, rica e diversificada vegetação.

“Revelando Sebastião Salgado”, por sua vez, disponível no NOW, é um retrato mais íntimo, porém não menos ilustrativo, do fotógrafo. A diretora Betse de Paula conseguiu entrar no estúdio parisiense de Salgado, que serve também de escritório. Em meio à extrema organização do arquivo de fotos, Betse deixa Salgado falar do bom humor do início de sua carreira, da entrada para a Magnum, de Henri Cartier-Bresson, da foto histórica do momento em que Reagan foi baleado e de outros casos. De certa forma “O Sal da Terra” e “Revelando Sebastião Salgado” são complementares e imprescindíveis para compreender os matizes dessa grande personalidade, seja no clima mais austero do filme de Wenders e Juliano, seja na grande feijoada francesa regada a samba e caipirinha que encerra “Revelando Sebastião Salgado”.

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