Da alegria de descobrir o cinema

O cinema, como nenhuma outra arte, tem esse poder da visão em conjunto, algo que aos poucos vai se desfazendo com a portabilidade e a catatonia que fragmenta famílias

Por O Dia

Dias desses, minha filha, de nove anos, surpreendeu-me com algumas perguntas que alimentaram o tema desta crônica. "Pai, você já foi a Amsterdã?" Respondi com outra pergunta, invertendo o sinal quase sempre comum na conversa entre pais e filhos: "Por quê?” "Porque é lá que fica a casa de Anne Frank e eu queria muito conhecer." Novamente curioso, quis saber qual a razão que a levara a se interessar pela trágica história da adolescente cujo diário foi escrito secretamente em pleno nazismo. "É porque eu já vi 'A Culpa é das Estrelas' três vezes e os personagens vão na casa dela".

Mesmo tendo já visto o filme tantas vezes, o que chamara a atenção de minha filha fora no fundo um aspecto passageiro do roteiro. É evidente que a precoce morte de Anne Frank reflete no drama dos personagens do livro de John Green, ambos adolescentes também assustados com a iminência da morte. Mas o nosso papo levou-nos a tergiversar mais sobre o nazismo e suas irremediáveis consequências do que sobre o destino dos protagonistas. E ela mais do que nunca quer agora conhecer a casa de Anne Frank.

Lembrei-me então de "O Clube do Filme", escrito pelo canadense David Gilmour, em que pai e filho se aproximam e aprofundam seus laços afetivos a partir de uma decisão radical de substituir a formação escolar tradicional pela visão de três filmes semanais. O cinema, como nenhuma outra arte, tem esse poder da visão em conjunto, algo que aos poucos vai se desfazendo com a portabilidade e a catatonia que fragmenta famílias divididas entre o laptop, o celular, o iPad e até mesmo a velha e ainda onipresente tevê. Mais ainda é o filme visto em grupo que nos permite dividir opiniões, emitir conceitos e sobretudo adquirir conhecimentos sobre lugares pessoas e histórias.

Por mais ampla que seja a crítica de um filme, ela jamais será absoluta. A opinião, mesmo a mais especializada, é filtrada pela formação e pelo olhar de cada um. Woody Allen conta que, ainda adolescente, ficara marcado por "Mônica e o Desejo" (1953), de Ingmar Bergman, que na vida adulta tornar-se-ia seu ícone cinematográfico. O engraçado é que anos depois Allen diria que o que mais o impressionara quando jovem foram as imagens de nudez de Mônica, que por um bom tempo agitariam seus sonhos. Cada filme, portanto, tem o seu olhar e guarda diversificados pontos de interesse, sobretudo o dos mais jovens, ainda sem os vícios e preconceitos da maturidade. Daí o frescor do olhar de uma menina de nove anos ter inspirado esta breve crônica. E uma poupança para Amsterdã.

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