Rodoviárias e arredores

O passageiro e cidadão tem que ser visto como o consumidor que tem necessidades, vontades, direitos, e que dá muito lucro quando é atendido

Por O Dia

Nunca entendi bem porque os empresários e governos dão tão pouca atenção às rodoviárias e aeroportos se eles são a porta de entrada da nossa cidade. De uma maneira geral, procuramos caprichar com a nossa porta de entrada de casa, dos prédios, enfim, fazer com que o visitante se sinta bem acolhido. No Brasil, chegar de avião ou de ônibus é o começo de uma batalha. Todo cuidado é pouco. Os arredores de rodoviárias e aeroportos costumam ser perigosos, com pouca iluminação à noite. Falta sinalização. Táxis são um capítulo (amargo) à parte. E transporte público, bem, é aquilo, o transporte público que todos que pegam ônibus conhecem...

Acho inadmissível que a pessoa chegue a um lugar novo e seja entregue à sanha desbragada de cobranças de carregadores, flanelinhas nas vagas no entorno, táxis comuns com taxímetros adulterados e que dão voltas desnecessárias até o destino, ou táxis especiais com valores quase tão extorsivo como o do comum “batizado”, preços exorbitantes para usar o banheiro, e nos produtos de lanchonetes e restaurantes dentro das rodoviárias. A pessoa se sente refém, e não acolhida.

Para começo de conversa, em todos os estados onde há metrô, deveria ser obrigatório que ele chegasse às rodoviárias (intermunicipais e interestaduais) e aos aeroportos. É bastante óbvio que o melhor transporte, principalmente para a pessoa que carrega malas, é o metrô.

No Brasil, a única rodoviária que tem metrô é a de São Paulo (Tietê). Muito bom, por sinal. E o aeroporto de Guarulhos tem um ônibus que leva o passageiro até a rodoviária, onde há o metrô. Não é o ideal, mas é um arranjo. Continua sendo muito desgastante para o passageiro carregar malas, coloca-las no ônibus integração na rodoviária, tirar as malas no ponto, coloca-las no metrô; mas, ainda assim, é mais seguro para os passageiros do que ir para a rua procurar um ônibus.

Só que todos os possíveis modais, ônibus integração, táxis, metrô, precisam ficar dentro da rodoviária, com a segurança garantida pelos guardas da rodoviária. É inadmissível que a pessoa precise sair à rua, carregada, para pegar um transporte público. Na rodoviária do Rio é assim, a pessoa tem que andar por um corredor, escuro à noite, para chegar aos pontos de ônibus e táxis, completamente desintegrados à rodoviária, um sufoco!

Toda a semana frequento as rodoviárias do Rio (Novo Rio) e a de Teresópolis. A Copa fez muito bem para a rodoviária do Rio, que melhorou muito. Próximo ao evento, fizeram uma reforma e foram colocados ar refrigerado, mais guardas circulando, rampas para se descer com as malas para o embarque, banheiros decentes (mas que cobram a tarifa indecente de R$ 1,50 para o uso), mais iluminação, área de alimentação com mesas, carrinhos para carregar bagagens, totens para recarga de eletrônicos (ainda poucos), e abriram muitas lojas, até uma livraria (que vive cheia, por sinal), lanchonetes, e uma lan house (também sempre cheia!). Os preços dos alimentos continuam acima da média e o atendimento nem sempre é lá essas coisas.

Mas, vejam só que, com algumas melhorias, muitos empresários se beneficiaram. Marcas que não investiriam numa área degradada como era a rodoviária, entraram no espaço. E, tenho certeza, todos saíram ganhando. Duvido que algum empresário na rodoviária tenha o que reclamar dos lucros. E o consumidor também ganha com um espaço com mais opções de compras, de divertimento e seguro.

Todos juntos deveríamos agora reclamar do entorno. Não há mais quem aguente tantos engarrafamentos, tanta falta de planejamento para aquele pedaço da cidade, parece que a obra parou e estamos vivendo num eterno “arranjo”, que só enlouquece a vida de quem tem que chegar pela Avenida Brasil ou dar o retorno no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad (Into). Está um caos!

E qual é a saída? O consumidor se vira. Principalmente à noite, quando o entorno é mais sinistro, ele volta para o embarque, fica esperando um táxi que deixe uma pessoa, para pegá-lo. Assim, ele pega um táxi que não seja da máfia e não tem que sair na escuridão. Mas isso está transformando o embarque numa confusão. E até os táxis bandalhas já estão fazendo ponto lá.

Nos últimos anos venho rodando mais por rodoviárias no Sul e Sudeste, Rio, São Paulo, Curitiba, Joinville, mas já rodei por muitas no Nordeste. Não muda muito o perfil. Parece que elas sempre se copiam. As menores principalmente. No entanto, a arquitetura deveria ser diferente para cada região. As rodoviárias abertas, com corredores de vento são ideais no Nordeste, mas um sofrimento para as pessoas que enfrentam os ventos gelados do Sul. Poucas administrações se preocupam com o consumidor.

Na rodoviária de São Paulo, no maior centro do comércio do país, a pessoa que chega cerca de seis horas da manhã na ponte Rio-São Paulo, só encontra uma loja vendendo café e pão de queijo. A fila é enorme. Somente duas pessoas atendem e, tentando não arrancar os cabelos de tanta demanda, são quase indolentes no atendimento. O mais interessante é que, em frente, existe uma outra loja, que é do mesmo dono. Se esta outra loja vendesse apenas café, diminuiria a fila da loja de café com pão de queijo, e outras pessoas, que só quisessem café, comprariam lá. Com certeza esse empresário teria um aumento de vendas.

Rodoviárias e aeroportos poderiam ser lugares mais aconchegantes, seguros e lucrativos. Mas o passageiro e cidadão tem que ser visto como o consumidor que tem necessidades, vontades, direitos, e que dá muito lucro quando é atendido.

Últimas de _legado_Notícia