Por douglas.nunes

Faltam poucos dias para as eleições e até agora não ouvi, nenhuma vez, a palavra consumidor sair da boca de nenhum dos candidatos. Em seus discursos, somos eleitores, na maioria das vezes, porque é isso que lhes interessa neste momento, e somos cidadãos ou trabalhadores várias outras vezes. Mas nunca falam do lado consumidor deste eleitor/cidadão/trabalhador. O que é muito estranho, num país que depende do consumo para crescer, o nosso perfil de consumidor ser completamente esquecido, como se não fôssemos a força motriz deste consumo.

Se fôssemos unidos, e deixássemos de utilizar um meio de transporte, ou de comprar produtos de uma determinada indústria, ou fechássemos, todos ao mesmo tempo, as contas bancárias de um mesmo banco, nós, com nossa força de consumidores, fecharíamos fábricas e conseguiríamos serviços melhores. Mas enquanto não chegamos neste ponto de maturidade e união, só nos resta pedir aos candidatos, que, se eleitos, façam com que nossa vida de consumidores seja mais fácil.

Olha como é difícil ser consumidor neste país. Minha faxineira chega atrasada, levou quase cinco horas para chegar na minha casa, acordou às quatro da manhã. Ela pega um ônibus, o trem, o metrô e mais um ônibus para vir para cá. Reclama que ficou horas na fila esperando o ônibus mais barato, mas ele não passa. A empresa só coloca em circulação os de tarifa mais alta. Ela diz que já reclamou com o fiscal, mas ele alega que é decisão do patrão. Começa a trabalhar e coloca o celular pendurado em um prego, pois é o único lugar da casa onde a operadora dela pega.

Preciso imprimir a fatura do serviço de banda larga, porque, este mês, a empresa resolveu não mandar mais a fatura em papel e nos obriga a imprimi-la. Um absurdo eu ter este custo e este trabalho. Vou para o banco, mas não posso entrar. Os bancos estão em greve. De novo? reclama uma senhora ao meu lado. O vigilante explica, não, essa greve é dos funcionários do banco, a outra foi dos vigilantes. E o consumidor prejudicado é o mesmo, penso eu. Entro na enorme fila dos saques, pois hoje é dia 1, dia de pagamento. E amanhã, vou ter que enfrentar isso novamente, por causa da limitação de valor de saque.

Tento fazer uma ligação, mas o celular está com a tela preta e não liga. Sei que está carregado e há menos de duas horas recebi uma ligação. Vou na loja da operadora pedir uma ajuda. O atendente, de má vontade, diz que isso não é problema da operadora e que eu procure o fabricante do aparelho. Voltei para o meu aparelho velhinho, coberto de fita durex, mas que continua funcionando. Acho que estes novos aparelhos já vêm com data para morrer. Nós é que não sabemos quando. Aconteceu um problema parecido com o aparelho da minha filha, que é de outra marca. Ela me diz para eu me preparar porque o orçamento do conserto vai ser quase o preço de um novo. É assim que eles fazem para a gente comprar mais, explica.

Passo na farmácia e pego um xarope que uso há anos. Estou na fila para pagar e leio a bula. Observo que trocaram a tabela do rótulo. Antes, nesta tabela, vinham os percentuais de cada ingrediente, agora apresenta a informação nutricional, dizendo o valor energético, carboidratos etc, quase todos com percentual zero. Fico pensando, por que mudaram? Continuo procurando e acho. Ingredientes: mel, extrato de própolis. Aromas de agrião, guaco, poejo e eucalipto. Aroma? Como assim? Volto a ler a frente do rótulo e está lá: composto de mel e extrato de própolis, sabores agrião, guaco, poejo e eucalipto. Sabores! Não comprei. Me senti enganada, estou tomando uma fraude. Agora xarope vai ser igual a queijo, que antes era parmesão, mas agora é “tipo” parmesão. Muita enganação!

Em menos de um dia, passo por todos esses dissabores como consumidora e sei que todos os que me leem passam pelos mesmos problemas ou piores. Então, em nome de todos os consumidores, que são também eleitores, peço aos candidatos, que, se eleito for, torne a vida do consumidor mais fácil. Para isso, é só o novo governante fazer ele mesmo as coisas e não mandar alguém fazer. Se ele mesmo comprar, reclamar no atendimento das empresas, levar o produto para consertar, marcar seus médicos e exames, vai saber governar, porque vai saber cobrar eficiência das empresas e respeito por quem consome, que é quem paga o seu salário e o colocou no cargo.

Nossas opções de escolha de candidatos são tão ruins como são as opções que temos de empresa de telefonia ou plano de saúde ou banco. Ou seja nenhum candidato é tão bom, transparente, competente e ético, para que a opção seja clara. Todos prometem as mesmas coisas, e até quem já pode fazer alguma coisa, não fez. Não acreditamos no que dizem. É mais fácil acreditar no anúncio que garante “felicidade” para a família que consome margarina. Mas temos que escolher, pior é não escolher, o prejuízo é maior. O que temos que fazer agora é aprender a cobrar.

Nós, enquanto consumidores, temos o poder de não comprar, de não usar um serviço, de não utilizar uma marca. Precisamos nos conscientizar de que temos o poder do não, precisamos nos lembrar de que nós é movimentamos a economia do país, e de que podemos criar revoluções silenciosas, somente não utilizando nossos cartões. E, vestidos de eleitores, temos o poder de não dar chance de piorarem ainda mais o nosso país. Portanto, só nos resta votar nos menos piores e nos preparar para, com paciência e determinação, cobrarmos deles o tempo todo.

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