Ajuda que virou um inferno

É hora de garantir uma regulamentação de qualidade, que iniba o crime, que proteja o usuário, e que garanta que, na rede, a liberdade terá o mesmo tamanho da responsabilidade

Por O Dia

Já está muito difícil manter-me na linha tênue entre continuar conectada ao mundo, mas sem ser bombardeada pelas ofertas e pedidos que ficam nos ameaçando, à espreita, no universo da internet. Não bastasse isso, ainda sou vítima de uma ofensiva peculiar: os pedidos de doações pelo telefone fixo. Um dia, aceitei ajudar um orfanato. Foi a pior ideia que tive. Não sei como meu telefone foi parar em todos os orfanatos no estado do Rio. Como faço para me livrar disso? Mudo de operadora para trocar o número? Isso bagunçaria a minha vida. O Código de Defesa do Consumidor determina que meu nome não pode constar de listas se eu não autorizar o uso. Mas como impedir esse abuso?

Sem brincadeira, todos os dias, algum Lar, de alguma coisa, me liga pedindo ajuda em dinheiro. Dizem que estão passando na minha rua no dia seguinte, pedem que eu ajude a uma determinada criança doente, a completar um enxoval, etc. Isso já começou há muito tempo. No início ainda ouvia e ajudei a uns três. Quando percebi a máfia, me irritei. A sensação que tenho é que entrei num cadastro de pessoas que doaram uma vez, como se fosse um tipo de Serasa dos otários, e de onde eu não tenho como sair nunca mais, já que nem sei quem administra o cadastro.

Fiquei pensando que isso não deve acontecer somente comigo. Outras pessoas devem ter caído nessa e imagino que muitas continuam doando. Nem sei dizer, honestamente, se esses lares e orfanatos existem mesmo. Não quero pensar o pior, parece que existem de fato. As vozes de quem liga são jovens ou de senhoras. O abuso é na forma de pedir, na invasão à minha vida.

Há algum tempo, atendo às ligações, já avisando que parem de ligar porque não vou mais fazer doação. No início, a intensidade diminuiu. Depois voltaram com a carga toda. Parece que eles têm metas a cumprir, como nas vendas de cartões de crédito. Agora, como não respeitam mesmo, resolvi que vou ameaçar. Vou anotar o nome do lar e avisar que não me liguem mais, pois vou processá-los. Bem, não adianta processar um lar pobre, a não ser para aporrinhá-lo, e para descobrir de onde vem o cadastro original. Será que isso estancaria essa invasão? A gente sabe que provavelmente não é isso que é triste, pois eles abusam e usam do nome dos pobres, porque sabem que estão impunes. E acabam ganhando doações, principalmente das pessoas idosas, que usam mais o telefone fixo. Um duplo abuso.

Lembrei-me de uma reportagem que fiz, na época da Telerj, de pessoas que aceitaram doar para a Legião da Boa Vontade (LBV) e eram cobradas na conta telefônica. Quando desistiam de doar, não conseguiam nunca se livrar do débito porque a Telerj dizia que quem tinha que tirar a cobrança era a LBV. E a Legião dizia que o problema era na Telerj. Ou seja, o abuso é antigo.

Se é uma chatice constar num desses cadastros de telefone fixo — utilizados, vendidos e trocados facilmente por quem quer oferecer produtos e serviços -, o perigo é muito maior quando se fala da internet e das redes 3G que estão em todos os lugares e em todos os aparelhos. Hoje, o sistema do Google é praticamente o grande irmão de George Orwell, de “1984”. Em uma procura, o sistema escolhe e nos empurra os links que lhe interessa, enche as laterais de anúncios, nos oferecendo produtos e serviços correlatos que vão te perseguindo, reescrevem a história, repetindo erros em vários links. E os nossos nomes, e o que fazemos, estão lá, em informações reunidas a partir do Google, do Facebook, do YouTube, tudo ao mesmo tempo. Estamos numa prisão tecnológica, da qual não conseguimos sair, assim como a prisão da lista dos orfanatos.

Não há mais como viver totalmente desconectado. Mesmo que o celular seja pré pago, e talvez até por isso mesmo, a quantidade de ofertas e de promoções é irritante. E o pior, é da própria operadora. Quer dizer, para me livrar disso, tenho que mudar de operadora, pois nem ela me respeita enquanto cliente.

A lei sobre o Marco Civil na internet, incluindo aí a proteção de dados pessoais, está em consulta pública no Ministério da Justiça desde 28 de janeiro. Vale a pena conhecer o projeto e as contribuições que estão sendo coletadas para a regulamentação do assunto no https://participacao.mj.gov.br. Esta é a hora de participar, de mostrar aos reguladores quais os limites que queremos impor sobre o uso dos nossos dados e a responsabilidade de quem os pede. Para mim, é um abuso o que acontece hoje, a quantidade de vezes que nos pedem o número de nosso CPF para tudo. Para consultar o número de telefone de uma assistência técnica, é preciso fazer um cadastro dando CPF. Para trocar uma roupa numa loja, pedem CPF.

Quem detém meus dados tem de ser responsável pelo uso que fizer. Eu, sinceramente, não gostaria de ter de dar meus dados para muitas empresas. O problema é que elas nos obrigam a isso, pois qualquer consulta tem que ser pela internet, e para entrar no site tem que cadastrar e dar o CPF. Um círculo vicioso onde só o consumidor pode perder. Esta é a hora de contribuir para que tenhamos uma lei moderna, mas que projeta os mais fracos, nós, consumidores, que somos apenas simples usuários da internet. Este é um instrumento da modernidade que não temos como abrir mão, então é hora de garantir uma regulamentação de qualidade, que iniba o crime, que proteja o usuário, e que garanta que, na rede, a liberdade terá o mesmo tamanho da responsabilidade.


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