Por diana.dantas

Venho sentindo que os preços estão aumentando por todos os lados. Até aí, nenhuma grande novidade. Já se esperava que houvesse repasse do aumento da energia elétrica, do diesel, da gasolina, preços que estavam represados por causa das eleições e ainda mais majorados com a falta de chuvas. E agora, por último, pesa o aumento do dólar. Só que tenho a sensação de que os pequenos empresários estão repassando a inflação do ano passado, o impacto destes aumentos nos seus produtos e serviços, e colocando uma margem de garantia porque... vai que piora.

A falta de clareza da política econômica, a falta de confiança nos deputados e senadores, que, obviamente, não estão pensando na população, e o fato de que o desemprego vem aumentado, cria uma sensação de desconfiança geral. O problema é que se todo mundo pensar assim e embutir o medo nos preços, a inflação, com certeza, vai aumentar. A quebra da confiança vira um círculo vicioso e tem um preço alto.

Os adeptos das forças do mercado vão dizer que a lei de oferta e procura resolverá o problema dos preços, que não poderão aumentar muito, pois há sempre o risco da concorrência. Acontece que os preços vão ficando tão loucos que o consumidor perde a referência. Uma garrafa de suco de 500ml custar R$ 14 numa loja de produtos naturais, para mim, é uma distorção, por mais que seja feito de frutas orgânicas e sem aditivos. Sabemos que os produtos naturais, melhores para a saúde, são os mais caros (estas distorções da vida moderna...). Mas é impressionantemente mais caro. E a gente tem pouco nível de comparação.

Os preços dos campings e dos estacionamentos que eu utilizo aumentaram. E todos os aumentos são de mais de 30%. O camping de Teresópolis, que custava R$ 30 por pessoa, no fim do ano passado, aumentou para R$ 40. O estacionamento onde coloco o motor home, em frente ao Hotel Glória, avisou que vai aumentar de R$ 550, por mês, para R$ 750, quase 40% de reajuste. Sem contar que em 2013 a mensalidade custava R$ 400, ou seja, quase o dobro do preço em dois anos. Quais serão os custos que pesam tanto para a manutenção de um estacionamento? Mas onde tem outro para eu comparar o preço?

A sociedade vem mostrando que quer mudar, quer que a corrupção acabe, quer educação e saúde de boa qualidade para todos, quer segurança, quer transparência. Esta é a melhor notícia do ano até agora. O problema é que na vida diária todo mundo encarna o ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro” até quando a farinha não é pouca. E nesse conceito entra tudo, desde estacionar o carro deixando um espaço enorme em relação ao veículo da frente para facilitar a saída, até aproveitar-se de uma indicação e furar a fila de atendimento médico em instituições públicas. A justificativa, muito provavelmente, é que todos fazem isso, ou que, se não for assim, nada se consegue. Isso sem falar nos políticos, que já se elegem pensando em levar seu pirão, ou melhor, sua parte da farinha. E arrecada no financiamento da campanha antes mesmo de ser eleito.

Sabemos que pagamos altos impostos, um dos mais maiores do mundo, e que não recebemos serviços estaduais e federais condizentes com o que pagamos. Mas a máquina é pesada, é difícil reclamar do que não recebemos, é complicado lutar para melhorar, ninguém tem tempo para ser persistente nas reclamações, e, na maioria das vezes, não acreditamos que alguma coisa vai melhorar. Por isso, quando o povo vai para as ruas, leva um combo de reclamações.

Nas eleições, o mote Pátria Educadora nos trouxe a esperança de que, finalmente, o governo federal investiria em educação. Logo de cara, o Fies empacou, as verbas das universidades federais e estaduais diminuíram, e sem poder pagar seus fornecedores, as aulas não começam. E na UFRJ, no Fundão, chove nos corredores dos prédios. Dá para acreditar que a educação é prioridade?

Há uma falta de confiança generalizada. Esse é o xis da questão. Ninguém mais acredita na eficiência da gestão do estado, nem na transparência das contas públicas. É muito difícil acreditar que os produtos fazem realmente o que dizem, e, muito menos, que as ofertas serão cumpridas. Pela lei de oferta e procura, a honestidade está com um valor cada vez mais alto.

Por isso, meu raciocínio é que as empresas que conseguirem ganhar credibilidade neste mar de desconfiança ganharão mais mercado do que se continuarem apostando nas vendas rápidas, incentivadas pelas falsas ofertas. Honestidade significa não prometer o que não vai cumprir; assumir claramente que não conseguiu cumprir o que prometeu, se for o caso. No pós-venda, atender com gentileza e dar respostas reais e honestas e dar uma satisfação de como vai resolver o caso. Eu nunca tive um produto Apple e nem quis experimentar. Isto porque quando trabalhava com cartas de reclamação de consumidores eu achava uma falta de respeito, a resposta da Apple aos seus clientes: “A Apple não comenta casos particulares”. E, por acaso, ela faz celular por encomenda?

Imagino ser difícil para as empresas se diferenciarem pela honestidade quando o mercado é marcado por metas de vendas a cumprir, necessidade de diminuição no custo de produção, cortes em setores que não são o chão de fábrica para melhorar margens, substituição de empregados mais antigos por mais novos, com menos benefícios, e por aí vai. É fácil identificar a lista do enxugamento, pois este é o círculo vicioso já conhecido. O desafio é quebrar este círculo, pois ele leva cada vez mais à recessão. Votos dos políticos de acordo com que o povo quer, mão firme nos cortes do governo em áreas que não sejam educação, saúde, segurança e transportes, e a criação de novos caminhos de vendas para as empresas. São alguns caminhos para se criar um círculo virtuoso. Mas é preciso começar agora.

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