Elas na mudança do consumo

As mulheres são propagadoras de exemplos porque estão em muitas frentes ao mesmo tempo. São elas que fazem as compras do supermercado, que escolhem a alimentação...

Por O Dia

O Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, caiu na mesma semana do consumidor e acabei não escrevendo sobre elas. Mas não queria deixar passar a data sem lembrar do protagonismo das mulheres no consumo. Nem elas se dão conta da enorme força que têm neste intrincado mercado. O marketing sabe. Elas elegem e mudam de marcas, influenciam nas grandes compras, como casa própria e automóvel, e também nas mensalidades mais pesadas, como na escolha das escolas dos filhos e do plano de saúde, são cada vez mais chefes de família e são a maioria dos trabalhadores na coleta de lixo reciclável. Elas estão em todas as pontas do consumo. Mas, a mais importante, é que elas atuam fortemente na educação para o consumo, pois são elas que influenciam as crianças, que são os futuros adultos consumidores. A elas, cabe, portanto, estar à frente na mudança do consumo. E a grande mudança, na verdade, é aprender a não consumir. Ou melhor, é mudar os valores na hora de consumir.

O mundo grita por uma mudança no perfil de consumo, mas esta troca de hábitos e valores tem que começar em casa, no dia a dia, incansavelmente, assim como ensinamos às nossas crianças que precisam dividir o seu espaço na caixa de areia com o amiguinho, que deve compartilhar o brinquedo, que precisa devolver o que não é dele. Estes valores devem ser estendidos para o consumo. É preciso ensinar também que não podemos desperdiçar a água no banho, que não é preciso ter tantos brinquedos, que legumes e frutas são mais saudáveis, e por aí vai.

Eu sei que as mães devem estar pensando, nesta altura do artigo, que elas sabem disso, mas fazer este discurso todos os dias cansa muito. É verdade. Educar cansa porque necessita de perseverança. E porque nós mesmos precisamos ser o exemplo. Aliás, todos os bons hábitos são um saco, cansam, e necessitam de persistência, como fazer exercícios físicos, resistir aos produtos industrializados, conviver menos com eletrônicos, ler um bom livro. Porém, quando conseguimos persistir, os resultados são maravilhosos. E ficamos orgulhosos quando nossas crianças se tornam adultos que acreditam em sua própria força de vontade, que são tolerantes com as diferenças, que acreditam que podem fazer suas escolhas, sem se deixar levar pelo marketing que cria a necessidade do consumo, que formaram bons hábitos e que pensam no bem comum.

As mulheres são propagadoras de exemplos porque estão em muitas frentes ao mesmo tempo. São elas que fazem as compras do supermercado, que escolhem a alimentação, que decidem os produtos usados pelos filhos, seu próprio vestuário, eletrodomésticos e produtos de casa. Elas também convivem mais com os filhos, com a empregada doméstica e prestadores de serviço. E são elas que sentem os primeiros efeitos da desorganização da economia, porque, na ponta mais fraca, são elas que gerem um orçamento em que a entrada de dinheiro é a mesma e os preços dos produtos nas gôndolas aumentam inexoravelmente. Ou, que gerenciam a escassez, quando falta água em casa, por exemplo. E faltar água em casa não é mais um problema somente de quem mora na periferia. São Paulo que o diga.

Este ano, especificamente, estas questões de mudança de consumo estão pipocando por todos os lugares. A crise hídrica mostra que a natureza já começou a mostrar os efeitos das mazelas que fazemos com nossos rios. Aqui, vou me permitir um parêntese para lembrar uma passagem pessoal. Quando fiz 15 anos ganhei de presente de uma tia uma viagem que foi uma grande lição de vida. Em Pirapora, Minas Gerais, pegamos o navio gaiola, a vapor, e subimos pelo rio São Francisco até Juazeiro, na Bahia. Nos sete dias de subida pelo rio, conheci várias cidades ribeiras, enquanto o vapor parava para se abastecer de lenha: Remanso, Sobradinho, e outras muito menores, nada mais que uma vila de casas de taipa, com criação de porcos como sobrevivência; não havia plantação, há dois anos não chovia. Anos depois estas cidades foram inundadas para ser feita a barragem de Sobradinho, e o vapor parou de viajar. Hoje, a seca está de volta, mostrando novamente estas cidades. Qualquer dia desses eu refaço o roteiro, e chego aos escombros, por terra, de motor home.

Poderia ser até uma piada, mas é uma tristeza. E mostra que temos que pensar em alternativas logo, agora, já. Precisamos salvar o que vamos deixar para filhos e netos. Vamos começar com o que está por perto. Se morarmos em um condomínio, podemos implantar energia solar para diminuir o custo da energia elétrica a longo prazo, organizar a coleta seletiva de lixo, usar mais as áreas coletivas (já pagas) com ginástica coletiva, corridas, brincadeiras para as crianças. Manter as ruas limpas. Em áreas carentes trabalhar em mutirões para não sujar os rios.

E temos que olhar para dentro de casa e ver o que vamos ter que cortar no nosso orçamento para dar conta dos aumentos e refletir sobre o que podemos fazer na nossa vida ao invés de apenas comprar. Trocar o shopping por um piquenique num parque, preferir uma macarronada em casa com amigos do que almoços em restaurantes. Mudar o jeito de viver a vida, seja lá o que cada um goste mais de fazer. Aliás, essa é uma boa pergunta para começar: o que você gostaria mesmo de fazer? Não vale nada sugerido pelas propagandas... Mudar a forma de consumo é uma boa maneira de olharmos para nós. Somos o que comemos, e o que fazemos com o nosso corpo e com a nossa mente.

Está na hora de o mundo reduzir o consumo como um todo. Vamos começar reduzindo o nosso e buscando alternativas. Vamos repensar o conceito de felicidade. Porque as mulheres são trifásicas, multitarefas e equilibristas. Ufa! E a mudança no consumo começa pela mudança de prioridade. Que cada uma de nós seja o começo desta nova era.

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