Por douglas.nunes

A queda dos calotes está atraindo a atenção dos grandes bancos privados de volta aos empréstimos para as pequenas, médias e microempresas. Bradesco e Santander já anunciaram neste ano linhas específicas para esse público, que, juntas, somam cerca de R$ 18 bilhões.

Viani, do Santander, anuncia mais dinheiro para pequenas empresasPatricia Stavis

No final de dezembro, o Bradesco tinha em carteira para PMEs R$ 128 bilhões e o Santander, R$ 33,7 bilhões. O Itaú ainda não fez nenhum movimento nesse sentido neste ano. Procurada, a assessoria de imprensa informou que a instituição está às vésperas de divulgar seu balanço do primeiro trimestre e que, por essa razão, a divulgação de informações é restrita. Mas, em outubro do ano passado, o Itaú anunciou R$ 5,2 bilhões para PMEs pagarem o 13º salário dos funcionários e outras despesas de final de ano. A carteira do banco para PMEs estava em R$ 85,5 bilhões em dezembro.

No ano passado, a oferta diminuiu porque os bancos adotaram a estratégia do “fly to quality” — centralizar a oferta em linhas de crédito de menor risco, como imobiliário e consignado. As outras modalidades haviam crescido muito nos anos anteriores e os calotes subiram junto. Os empréstimos para pequenas empresas, normalmente, tem índices de inadimplência mais altos do que as grandes — por outro lado, dão retornos maiores para as instituições. Mas o resultado da equação esteve desfavorável — agora, o cenário começa a mudar.

A volta do interesse dos bancos privados também deve compensar a desaceleração do aumento dos empréstimos dos bancos públicos. O Banco do Brasil (BB) tinha no final do ano uma carteira de R$ 99,9 bilhões para esses clientes enquanto a Caixa, R$ 90,9 bilhões.O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por sua vez, já passou 2013 desacelerando (leia mais sobre os empréstimos do BNDES na página ao lado).

O Banco Central, em seu Relatório de Estabilidade Financeira 2013, divulgado em março, já havia notado a redução da oferta de crédito para PMEs. “A carteira para PMEs continuou registrando taxas mais baixas de crescimento em comparação com as grandes. Assim, sua representatividade no crédito total à pessoas jurídicas caiu para 46,8% em dezembro de 2013, frente a 48,9% no ano anterior”, diz o relatório. Tal fato é parcialmente explicado pelo crescimento mais acelerado da carteira de crédito com recursos direcionados, na qual as grandes empresas são mais tomadoras, em relação àquela com recursos livres. As PMEs têm perdido participação também na carteira de recursos livres, representando 59% desta em dezembro de 2013, ante 61,2% doze meses antes.

“No ano passado, ficamos mais seletivos”, diz Ede Viani, diretor de pessoa jurídica do Santander. Para voltar a ampliar a oferta para as PMEs neste ano, o banco realizou pesquisas geográficas, setoriais e identificou possibilidades de emprestar mais, com riscos controlados, diz o executivo.Uma das maneiras de exercer esse controle é atrair o cliente com diversos serviços para fidelizá-lo — assim, fica mais fácil conhecer a realidade de cada um. O Santander acaba de lançar uma linha para desconto de duplicatas e capital de giro para PMEs, de 18 a 36 meses, com taxa líquida a partir de 1,07% — o custo varia de acordo com um sistema que premia a pontualidade do cliente.

No Bradesco, o movimento é semelhante. O banco disponibilizou cerca de R$ 8 bilhões para empréstimos para PMEs, segundo informou o presidente do banco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, durante evento promovido pela instituição nesta semana. “Quando o cenário está mais nebuloso, ficamos mais cautelosos. Neste ano, olhando para a frente, vimos que é possível ser mais elástico ao tomar riscos”, disse.

Dentro desse total citado pelo presidente do Bradesco, está a linha lançada na semana passada, com prazos longos para financiar investimentos, concorre com as do BNDES . A expectativa do banco, segundo informou o diretor para PME do Bradesco, Altair de Souza, é liberar R$ 4 bilhões nessa modalidade. “Por vezes, alguns dos investimentos que eles pretendiam fazer não se enquadravam em linhas do BNDES e precisavam de celeridade para liberar os recursos. São, muitas vezes, investimento de oportunidade”, explicou, no dia do anúncio. “Nossos clientes, especialmente aqueles ligados ao ramo de prestação de serviços, têm mostrado interesse em operações de crédito de longo prazo. A expectativa com o fluxo de turistas para os jogos da Copa do Mundo está motivando empresários de setores como turismo, transportes de e gastronomia a incrementar os seus negócios”, diz o diretor executivo do Bradesco. A linha Cred Investimento PJ vai operar com prazos de 37 até 60 meses e taxa de juros a partir de 1,89% ao mês, conforme ramos e atividade e perfil da empresa, como por exemplo, empresas do setor de franquias.

O Santander, por sua vez, informou que o volume liberado está em sintonia com a estratégia do Santander para o segmento de PME. “Queremos estar cada vez mais perto do empresário e sermos reconhecidos como o banco da pequena e média empresa brasileira”, ressaltou Viani.
O executivo não revelou quanto emprestou nessas duas linhas, especificamente, no ano passado. E avisou que se houver demanda, o volume pode crescer. “É um volume expressivo, um referencial para um momento de crescimento. E o montante é exclusivo para capital de giro e desconto. Temos outras linhas de crédito relevantes para esses clientes, como a conta integrada de adquirência - que reúne a maquininha de aceitação de cartões de débito e crédito (pela credenciadora GetNet, cuja compra foi concluída pelo banco nesta semana), mais conta corrente e desconto de recebíveis.

Em relação à demanda, porém, o executivo não vê mudanças. “A economia está mais ou menos igual ao que estava no ano passado. Com eleições e taxas de juros subindo, não vejo mais procura”, afirma. Mas ele explica que há uma “demanda orgânica, um pedaço de todo crédito concedido é autoliquidável. Queremos penetrar mais na nossa base de PMEs, e conquistar clientes novos”, diz.

Visa e Mastercard também estão de olho nas PMEs

As PMEs estão na mira também das bandeiras de cartões. “É onde estão as maiores oportunidades de expansão atualmente”, diz Marcelo Tangioni, vice-presidente de produtos da MasterCard Brasil e Cone Sul. No começo do mês, a MasterCard lançou o portal Empreendedor voltado para esse público. Segundo a empresa, o novo canal quer “contribuir com os negócios dos empreendedores, que muitas vezes não possuem acesso a empresas e prestadores de serviços ou não conseguem ter uma margem de negociação em relação aos valores praticados no mercado em decorrência do tamanho de sua empresa.”

Segundo Tangioni, o site focará em ofertas, soluções de gestão e processos e em notícias do segmento. A Mastercard vai vender “pacotes” de soluções por uma quantia inferior ao que pagariam caso fizessem a negociação diretamente, afirma Tangioni.

A Visa, por sua vez, se juntou anteontem ao ConnectAmericas, a primeira rede social criada para ajudar PMEs da América Latina e Caribe a expandir-se em mercados internacionais, ensinando-as a exportar e virar parte de cadeias internacionais de fornecedores. O site ainda oferece informações sobre opções de financiamento de bancos comerciais, investidores internacionais e do próprio BID.

Para a bandeira, a parceria é uma oportunidade para continuar expandindo seus negócios com as PMEs. A Visa tem mais de 30 milhões de cartões circulando entre as PMEs na América Latina, Estados Unidos e Canadá. Segundo a empresa, o objetivo é “trazer competitividade para as empresas e ajudá-las a fazer parte do mercado internacional através do e-commerce.” No Brasil, a Visa vem contribuindo com o portal Clube de Negócios, lançado em 2009, com estudos, vídeo-aulas e informações para o micro, pequeno e médio empresário portador do cartão Visa Empresarial.

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