Lagoa de Piratininga continua linda para quem vê de longe

Cercada de mato, esgoto e lixo, problemas no entorno na lagoa ainda estão longe de serem resolvidos

Por bianca.lobianco

Rio - Águas poluídas, esgoto, mau cheiro e lixo. Herança que tem passado de pai para filho, a poluição da lagoa de Piratininga e os problemas em seu entorno ainda estão longe de serem resolvidos. No entanto, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) afirma que já houve melhora na qualidade das águas com o término da primeira etapa do projeto de despoluição do local.

A opinião dos pescadores, porém, não é a mesma do órgão. “Meu pai era pequeno e já ouvia falar da drenagem da lagoa. Ele morreu, nada foi feito e a situação só piora. A gente chegou a pescar 100 quilos de peixe por dia. Hoje não pegamos nem 40”, desabafa o pescador Luiz Mendonça, de 48 anos, que também é morador da região, no lado mais próximo à praia.

Lagoa de Piratininga ainda tem muitos problemas para serem resolvidosAlexandre Vieira / Agência O Dia

A poluição vem principalmente dos rios Jacaré, Arrozal e Santo Antônio, entre outros, que abastecem o sistema lagunar. Os pescadores contam que, com a escassez de peixe, muitos estão deixando o ofício para trabalhar na construção civil.

“É triste isso. Mas não tem jeito porque não está dando para sobreviver. Muitos pescam nessa época, quando a lagoa ainda está cheia. No verão, quando ela seca, vão trabalhar em obras”, conta o pescador Ivan Nunes da Costa, de 53 anos, que reclama também do lixo deixado à beira do espelho d’água. Todos os dias de manhã, ele varre a frente de sua casa. “Não somos nós que jogamos lixo aqui. Preservamos bem o nosso lugar”, afirma ele.

MUTIRÃO DA LIMPEZA

Para amenizar o problema, os moradores costumam se reunir para limpar o entorno. “Está na hora de fazer outro mutirão”, propôs o militar reformado Henrique Gomes, de 66 anos, morador há 25. Dentro da lagoa, em frente à casa dele, na quarta-feira, havia uma sapateira, um pedaço de espuma, carcaças de barcos e garrafas plásticas.

O engenheiro Gonzalo Pérez Cuevas vive na área desde o ano de 1954 e se tornou uma espécie de fiscal da lagoa. Com sua picape, ele anda pelo entorno dela pesquisando cada cantinho. De tanto fazer isso, já conhece os pontos mais críticos da região. E um deles fica bem próximo à casa dele. O mau cheiro do lugar anuncia o que estar por vir: uma camada preta e densa bem na margem assoreada.

“E isso não é esgoto das casas porque aqui tem saneamento básico. Já verificamos tudo e as casas são ligadas à rede coletora. O problema é a sujeira e poluição que vem de outros locais. As redes de águas pluviais entupidas também ajudam a poluir porque transbordam quando chove, misturando o esgoto às águas da lagoa”, denuncia Gonzalo.

“Por enquanto, estamos falando apenas de poluição e de sumiço dos peixes. Quero ver a hora em que essa água começar a transmitir doenças”, sentencia o pescador Luiz.

“Renovação da água é muito pouca”

A primeira etapa do projeto de recuperação das lagoas de Piratininga e de Itaipu ficou completa em março, de acordo com o Instituto Estadual do Ambiente. Segundo o Inea, o objetivo é a melhoria da troca hídrica entre o mar e a lagoa. O maquinário usado fica na entrada do Tibau. Mas, para os moradores, as obras não foram suficientes.

“Até há a renovação da água, mas é muito pouca, é limitada. Essa troca de água traz também a sujeira da lagoa de Itaipu, e o túnel que fizeram é mais alto e impede o retorno das águas que entram em Piratininga”, reclama o engenheiro Gonzalo Pérez Cuevas.

O Inea diz ainda que há projetos para melhorias na lagoa de Piratininga e em seu entorno, mas que ainda não há data para serem realizadas. O programa, de acordo com o órgão, prevê a urbanização da Ilha do Jardim do Imbuí, onde será construído um centro de lazer para os moradores com ciclovia, quadra de futebol, quadra poliesportiva, pista de skate, bosque, deque de pesca, banheiros e uma passarela.

Enquanto a solução não chega, os moradores vão encontrando mais problemas ao longo da área. Um deles, os canais extravasores. Essas tubulações, acrescentam, pertenceriam à Águas de Niterói, e dali sairiam esgotos que seriam despejados pela concessionária.

A empresa nega: “A concessionária Águas de Niterói não faz lançamento de esgoto in natura. Os efluentes passam por estação de tratamento, e não são destinados à lagoa”, diz a nota. O documento informa ainda que a Região Oceânica tem rede coletora de esgoto e que já eliminou 78 pontos de lançamento clandestino de dejetos em Piratininga graças ao projeto Lagoa Limpa.

A concessionária atua na área em parceria com o Inea no projeto Se Liga. De acordo com o Inea, 304 casas que despejavam esgoto na lagoa foram notificadas e, depois disso, conectadas à rede coletora dos rios Arrozal e Jacaré e do canal de Santo Antônio. O Inea recebe denúncias pelo telefone 2332-4604.

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