Ambulantes da cidade dividem calçadas com africanos que fogem da guerra

Prefeitura sabe que estrangeiros trabalham como ambulantes, mas precisa do apoio da Polícia Federal para agir

Por O Dia

Niterói - Não estranhe se ao caminhar pelas ruas do Centro você ouvir um sotaque africano. São os nigerianos, angolanos e senegaleses que desembarcaram na cidade e se misturaram às dezenas de vendedores ambulantes legalizados espalhados pelo bairro. Oriundos de regiões em constantes conflitos e de extrema pobreza, eles não se deixam fotagrafar e falam pouco. Longe da terra natal, acabam caindo no subemprego e na ilegalidade.

Trabalhadores estão esperando o projeto para a construção de um mercado popular. O local será usado para abrigar as barracas legalizadas que hoje ocupam as calçadas Alexandre Vieira / Agência O Dia

Além da língua, outros detalhes chamam a atenção para os gringos. Como não são legalizados, os africanos não trabalham em barracas, mas em tabuleiros — como são chamados os isopores onde expõem seus produtos — e comercializam sempre os mesmos materiais: óculos (de sol e de grau) e relógios.

Ilegais, sim, invisíveis às autoridades, não. A prefeitura informou que tem conhecimento da existência de estrangeiros vendendo mercadorias pelas ruas da cidade, mas não disse quantos. Segundo a administração municipal, para atuar junto aos estrangeiros ilegais é necessário um trabalho com a Polícia Federal, já que existem tratados do Brasil com a Organização das Nações Unidas (ONU) que protegem refugiados de países em conflito.

Ainda de acordo com a prefeitura, a Guarda Municipal fiscaliza esse comércio regularmente e faz mais de 400 apreensões por mês dessas mercadorias só no Centro.

Arredios, os africanos praticamente se limitam apenas a dizer o preço dos objetos e evitam conversas de ordem pessoal. “Sou nigeriano e estou aqui há dois anos”, conta um deles. “Vim do Senegal para Niterói há oito meses. Aqui, conheço a Ponta D’Areia”, diz o outro. “Não vou dizer meu nome e nem de onde vim, mas estou aqui sempre, todos os dias”, respondeu um terceiro vendedor.

Josias Solidade, de 32 anos, também é ambulante. Ele é um dos que divide a rua com os africanos. No comércio há 15 anos, há sete ele está legalizado. O rapaz vende brinquedos, mas já comercializou produtos como fita cassete. “Pararam de fabricar e tive que vender outras coisas. Tenho três filhos e é asim que os sustento. Minha mulher também trabalha comigo. Mas a gente não tem muito lucro, não”, lamenta. O ofício vem de família. Além de dividir a profissão com a esposa, Lucena Solidade, Josias tem irmãos e cunhados camelôs.

Já Carlos Alberto dos Santos, de 47 anos, comercializa frutas. A barraca dele é uma das poucas que vendem esse tipo de produto. Ele conta que se tornou vendedor ambulante devido a falta de outro emprego. “A gente tenta, mas não consegue. Está muito difícil emprego. As contas chegam e a gente tem que pagar, não é?”, reclama.

Josias Solidade está legalizado há sete anos e sustenta os três filhos com sua barraca Alexandre Vieira / Agência O Dia

Mas os camelôs africanos não são os únicos ilegais. Há niteroienses que fazem de seus carros suas barracas e, sem cerimônia, abrem o porta malas e vendem seus produtos. É o que faz, há 23 anos, Mauro da Silva, de 52 anos. Ele vende ervas medicinais e para trabalhos religiosos e temperos que planta em Maria Paula, onde mora.

“De vez em quando apreendem minha mercadoria. Fecho meu carro, vou embora volto no dia seguinte. Tem sido assim. Não sei por que a prefeitura ainda não me deu a licença”, questiona Mauro, que também vem de uma família de vendedores ambulantes. “Se for contar, minha família tem mais de cem anos de tradição nesse comércio”, revelou ele.

Na época da ditadura, camelô ia para prisão

“Vender coisa na rua na época da ditadura era vadiagem e a gente ia preso por isso”. O relato é do mais antigo vendedor ambulante do Centro, como faz questão de ser chamado Paulo Roberto Dias, de 63 anos, há 50 nas ruas de Niterói. Ele é de uma época que não havia mulheres na profissão. “Camelô se falava há 30 anos. Hoje mudou, é vendedor ambulante”, ironiza.

Paulo Roberto divide a barraca de frutas com Carlos Alberto dos Santos e tem orgulho da profissão. “Formei meus filhos todos com esse trabalho. Fazia questão de trazê-los aqui para verem como é duro a vida do ambulante. Aqui, é a faculdade do asfalto. Não adianta estudar em livro grosso se não se sabe nada da vida”, conta ele que, apesar do amor pela profissão, reconhece as dificuldades de ficar tantas horas na rua.

“É uma vida cruel. Trabalhamos no sol, na chuva, no calor e no frio. Não temos um lugar reservado para comer e usamos os banheiros dos estabelecimentos comerciais”, reclama, contando que espera uma solução para esse desconforto.

Segundo Paulo Roberto, o prefeito Rodrigo Neves prometeu construir um mercado popular quando começarem as obras de revitalização do Centro. “Além de melhorar nossas condições de trabalho, teremos um lugar fixo quando começarem essas melhorias na região”, espera.

Paulo Roberto Dias%2C de 63 anos%2C trabalha desde os 13 anos nas ruasAlexandre Vieira / Agência O Dia

Barracas terão que ser padronizadas

Os ambulantes de Niterói estão passando por um cadastramento e recadastramento feitos pela Secretaria de Ordem Pública (Seop). Além disso, as barracas serão padronizadas e todas passarão a ser laranja. Atualmente, os ambulantes usam toldos azuis.

Os camelôs da Rua Gavião Peixoto, em Icaraí, foram os primeiros cadastros. Dos 118 que entraram com pedidos de licença, 96 receberam autorização. Eles permanecerão nos mesmos lugares que já trabalham hoje. A diferença, além da padronização das barracas, é que serão organizados de maneira alinhada, de modo que as calçadas fiquem livres para pedestres e carrinhos de bebê. Os próximos a serem cadastrados serão os da Rua Coronel Moreira César.

Localização, duplicidade de barracas e avaliação do perfil social, além de atestado de bons antecedentes são os pontos analisados pela Seop para conceder as licenças. A secretaria concedeu e renovou licenças obedecendo critérios de antiguidade e atendendo a deficientes físicos. Para trabalhar nas ruas é necessário pagar uma taxa e a licença é concedida de acordo com o produto comercializado. Roupas e acessórios são os mais requisitados. Já o comércio de ervas e temperos está sendo estudado e deve ser incluído no edital.

Os ambulantes que vendem em carros não têm autorização para esse tipo de comércio. A Guarda Municipal apreende quatro veículos por semana e o material comercializado neles. A prefeitura confirmou que há um projeto para a construção do mercado popular abrigar os camelôs do Centro, mas ainda depende da licença ambiental e de recursos para a obra.

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