Por bianca.lobianco
Publicado 12/09/2014 18:32 | Atualizado 12/09/2014 19:43

Niterói - Tema polêmico na campanha eleitoral desse ano, a questão dos direitos dos casais gays tem dados assustadores em Niterói. De acordo com um relatório do Rio Sem Homofobia, 159 dos 592 atendimentos feitos no Centro de Cidadania LGBT da cidade são de violência homofóbica, o que corresponde a 27% dos casos. Conflitos familiares, agressões e constrangimento são os principais temas. O município responde por 44% das consultas no local, que engloba ainda São Gonçalo, Itaboraí e Maricá.

“A proximidade com o Rio faz com que os niteroienses sejam mais engajados nessa luta. O Rio, com certeza, é uma fonte de inspiração para eles, mas Niterói ainda precisa avançar mais nessa questão e nossos dados mostram muito claramente isso”, avalia o coordenador do Rio Sem Homofobia, Claudio Nascimento.

Gino Fonseca conta que a maioria dos casais gays não pensa em ter família%2C mas ele quer adotar um meninoAlexandre Vieira / Agência O Dia

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelo dados sobre o país, não têm pesquisa sobre a população gay. O censo de 2010 se limitou a identificar casais do mesmo sexo. Em todo o país há 60 mil casais homossexuais, enquanto outros 37,5 milhões de casais são heterossexuais. Desse total, Niterói tem 95,4 mil casais são heterossexuais e apenas 377 homossexuais.

Mas, segundo Nascimento, pelo relatório de Kinsey — método americano usado para estimar a população de homossexuais — 10% da população das cidades são gays. Logo, pelo relatório, Niterói teria cerca de 50 mil homossexuais já que a cidade tem quase 500 mil habitantes.

O professor Gino Fonseca, de 52 anos, está entre os casais gays declarados. Há 12 anos ele vive com o cabeleireiro Paulo César Santos, de 52 anos. Defensor, claro, da causa LGBT, ele optou pela militância gay de forma menos tradicional. Para ele, o gay tem um comportamento estereotipado, que ele não segue. Segundo Gino, a maioria não pensa em ter família e nem no futuro.

“Luto pelos meus direitos. O que consigo acaba abrindo precedente para outros. Sou militante da causa, mas há tempos deixei de frequentar, por exemplo, a parada gay. É uma comemoração de apenas algumas horas, quando saímos dali, tudo volta ao normal. As coisas ainda são muito difíceis para nós. Muitos gays vivem apenas o momento, frequentando baladas e sempre cuidam dos sobrinhos e dos filhos dos amigos. Quando apresentam um namorado tem que falar que é amigo. Não gosto disso”, lamenta Gino.

A primeira luta dele foi conseguir colocar Paulo César como seu dependente no plano de saúde. Agora, estão prestes a conseguir adotar um menino de 3 anos, que já vive com o casal há um ano e meio. “Até o fim do ano ele terá os nossos sobrenomes”, comemora Gino, que vai lançar um livro com a sua história de adoção.

Como exemplos do avanço na questão na cidade, Niterói tem uma lei municipal que proíbe a discriminação por orientação sexual. Tem ainda uma ONG que defende os direitos dos homossexuais elevada a Patrimônio Imaterial. Isso sem contar a parada gay, que acontece há 10 anos com mais de 100 mil pessoas. A adoção por casais gays tem sido um assunto recorrente na câmara dos vereadores.

Nicole Blass (camisa preta) se reúne com ativistas na CantareiraAlexandre Vieira / Agência O Dia

Transexuais usam nome social na UFF

Produtora e ativista do movimento LGBT em Niterói, Nicole Blass, de 32 anos, também acha que ainda há muito o que fazer pela causa gay, mas comemora os avanços na cidade.

“Embora Niterói seja conservadora, já podemos dar carinho em público em alguns lugares. Tem muita gente se assumindo”, diz ela, que irá, quinta-feira, a uma reunião para discutir a inclusão LGBT na Comissão de Direitos Humanos da câmara. Ela também participa dos encontros do Diversitas, grupo que atua na UFF e que já conseguiu que alunos transexuais passassem a ser chamados pelo nome social na universidade.

Grupo LGBT se tornou Patrimônio Imaterial do município

Tem sido tão crescente os movimentos pelos direitos LGBTs em Niterói que o Grupo Diversidade Niterói (GDN) se tornou Patrimônio Imaterial da cidade. O título foi dado em julho. A indicação foi do vereador Leonardo Giordano (PT). O grupo tem cerca de 200 militantes fixos e existe há 10 anos. Ele é o organizador da Parada Gay do município.

“Fazemos um trabalho muito sério e ativo na comunidade LGBT, por isso ganhamos esse título tão importante. O grupo foi criado a apartir de um caso de homofobia que aconteceu na Praia de Icaraí. A vítima procurou ajuda na época e teve muita dificuldade em conseguir apoio”, explica o vice-presidente e secretário-geral da ONG, Felipe Carvalho, de 28 anos.

O GDN atua desde a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, com distribuição de preservativos, até com apoio psicológico aos gays da cidade. “Promovemos debates, orientamos sobre os direitos dos LGBTs e também damos cursos de teatro, DJ e procuramos inserir o homossexual na sociedade com os eventos que fazemos, como a feijoda na Praça São João, no Centro. Mas, esse ano, faremos uma galinhada, que já está marcada para novembro”, revela Felipe

Antropóloga e doutoranda da UFF Hilaine Yaccoub teve contato com o GDN em 2007, quando viajou com o grupo para Juiz de Fora, Minas Gerais. “As pessoas estão se sentindo mais seguras para assumir porque têm respaldo jurídico e político. Niterói também tem um alto poder aquisitivo e isso ajuda porque essas pessoas acabam viajando mais, se informando mais e, quanto mais esclarecidas forem, maior é a tendência em aceitar mais esse tipo de comportamento”, avalia ela.

Hilaine acredita que as universidades de Niterói têm um papel importante na aceitação da sociedade niteroiense com a causa LGBT mesmo, segundo ela, sendo uma cidade ainda muito tradicionalista. “Niterói é uma cidade universitária e a UFF é o centro da intelectualidade, responsável por formar uma juventude mais aberta, mais tolerante.

“Hoje, é vergonhoso de se autoplocamar homofóbico. E a orientação sexual não é o centro de vida das pessoas. Você pode não aceitar, mas tem que respeitar e acho que as pessoas já estão pensando dessa forma”, comemora Hilaine.

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