Por marina.rocha
Niterói - Quem passa pela movimentada Rua da Conceição, no Centro de Niterói, não imagina que ali, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, está um pedaço de uma das mais emblemáticas histórias da humanidade: o Santo Lenho, um fragmento da cruz onde Jesus foi crucificado. Guardado num relicário de prata, ele fica exposto no Museu de Arte Sacra de Niterói, anexo à igreja.
Igreja Nossa Senhora da Conceição%2C onde fica o Museu de Artes Sacras de NiteróiEstefan Radovicz / Agência O Dia

A relíquia foi descoberta em 2008 por historiadores do Museu de Arte Sacra do Rio de Janeiro. Exposto com outros objetos em uma mesa no museu de Niterói, o relicário chamou a atenção do prior (superior de uma paróquia) Paulo Roberto Marcos Quintão, um católico praticante e conhecedor de arte que fora responsável pelo Museu da Marinha, no Centro do Rio. Ele faleceu no ano passado.

“Ao ver a peça ele desconfiou que havia alguma coisa dentro dela. Quando os historiadores abriram a parte de trás do relicário levamos um susto. O acesso ao interior dele estava lacrado com um selo de cera, daqueles bem antigos, com o brasão do Vaticano. Essa foi a prova de que nele havia o Santo Lenho”, explica o mordomo do museu Edenildo Sarmento. “Fomos para o Rio de barca com o relicário enrolado em jornal e voltamos de táxi com ele envolto em plástico bolha”, diverte-se ele.

Desde então, a peça ganhou um lugar especial no museu. Ela fica num armário trancado construído numa das paredes e com vidro para que os visitantes possam vê-lo. E para protege-lo ainda mais o vão de uma escada separa o objeto sagrado das pessoas. Segundo Edenildo, só há outro Santo Lenho no Brasil e fica na Bahia.
Gelson Braga atribui a recuperação de duas cirurgias cardíacas em menos de 24 horas à uma graça recebidaEstefan Radovicz / Agência O Dia

A chegada do objeto, a Niterói, no entanto, ainda é desconhecida. “Acreditamos que ele tenha sido trazido pelos portugueses”, explica Edenildo.

O relicário só deixa o local no na Sexta-feira da Paixão, quando é levado para a Catedral São João Batista, no Centro, e no segundo domingo de cada mês, quando é rezado o ofício da Imaculada Conceição. O ritual acontece há cinco anos e começou após um pedido de Gelson Braga, de 62 anos. Ele é um dos muitos niteroienses que não sabiam da existência do Santo Lenho na cidade. Católico fervoroso, ele atribui a recuperação de duas cirurgias cardíacas em menos de 24 horas à uma graça recebida. “Era 14 de setembro (quando a igreja católica celebra o Dia da Santa Cruz) e havia uma celebração. Fiquei muito tocado e rezar diante do Santo Lenho foi a maneira que encontramos para agradecer pela minha vida”, contou emocionado.

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Outro que passou a frequentar o ofício foi João Pedro Antunes, de 19, neto de um amigo de Gelson. Em 2012, um extintor de incêndio explodiu em cima dele durante o trabalho. “Disseram que se eu sobrevivesse, ficaria oito meses no hospital. Mas a minha família rezou diante do Santo Lenho e me recuperei em pouquíssimo tempo. Desde então, venho aqui agradecer pela minha vida”, conta o rapaz.
Visitação
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Apesar de abrigar uma peça da importância do Santo Lenho, o Museu de Arte Sacra de Niterói quase não é visitado. Ele abre apenas no primeiro domingo do mês, das 9h às 22h.
“Já teve dia de não vir ninguém. Gostaríamos que ele funcionasse como os outros museus. Mas, para isso, precisamos de alguém que fique aqui só que não podemos pagar. Já tentamos parcerias, mas não foram adiante ”, lamenta Edenildo.
O museu fica na Rua da Conceição 216. Tel.: 2717-0154. Grátis.
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Além do Santo Lenho, ele abriga outras peças da história da igreja.
João Pedro Antunes agradece por ter escapado de uma explosão Estefan Radovicz / Agência O Dia

Pia de água benta

Esculpida pelos escravos no século 18 e encontrada durante uma das obras da Igreja de Nossa Senhora da Conceição escorando uma mesa no altar. Já esteve também na casa de um morador de Niterói servindo de comedouro para as galinhas.

N. Senhora de Fátima

A imagem veio de Angola, na África. A história conta que foi encontrada intacta em um pedestal dentro de uma igreja que havia sido destruída durante a Guerra Civil naquele país. Levada para um alojamento militar, também teria salvo os militares da morte e o local da destruição provocada por um tempestade que devastou todos os outros alojamentos.

Crucifixo torto
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Encontrado após uma escavação no terreno da igreja. Devido ao calor, por ter ficado sob escombros por muitos anos, o metal derreteu entortando-o.
Telha
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É o único exemplar que sobrou da construção original do telhado da igreja, que teve que ser substituído após ser destruído por uma tempestade. Todas as telhas foram importadas de Marselha, na França.
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