Por victor.duarte

Niterói - O Dia do Trabalho, comemorado no 1° de maio, não tem assim grandes motivos de festa para quem mora em Niterói. Uma pesquisa do Sebrae realizada no ano passado indica que os trabalhadores do Leste Fluminese têm tempo médio de deslocamento até o serviço de 50,3 minutos. Porém, os dados usados como base são de 2010, os últimos do censo do IBGE. Mas, segundo o especialista em Mobilidade Urbana Alexandre Rojas, em cinco anos, esse tempo dobrou.

“Niterói cresceu muito, mas a mobilidade urbana não avançou na mesma proporção, além da cidade ser passagem para quem vem de São Gonçalo. O ideal seria a linha 3 do metro e o túnel pela Baía de Gunabara. Estudos já comprovaram a viabilidade dos pojetos, mas o governo estadual alega que não tem dinheiro para fazer as obras”, analisou Rojas.

Há 25 anos%2C Bráz da Silva Freire%2C de 66 anos%2C acorda às 2h%2C anda 15 minutos de bicicleta até o ponto e pega dois ônibusMauro Pimentel / Agência O Dia

A enfermeira e empresária Myrna Beisl, de 37 anos, já levou quase quatro horas de Icaraí até a Lagoa, no Rio, mesmo indo de carro a uma reunião de trabalho. O trajeto lembrou os tempos em que trabalhava na Gávea e precisava sair de Icaraí às 5h para chegar à clínica às 8h. Hoje, ela e o marido, o geólogo Carlos Beisl, de 47 anos, trabalham em casa. “Vamos enventualmente às empresas para as quais prestamos serviços. Nosso trabalho rende muito mais e a família ficou mais unida”, comemora.

Para Carlos a economia que a família faz é uma das vantagens de trabalhar de casa. “Não gastamos gasolina e nem com comida na rua. Trabalhamos mais, mas temos mais qualidade de vida”, conta ele.

Porém, há quem faça o caminho inverso. Há 25 anos, o peixeiro Bráz da Silva Freire, de 66 anos, acorda às 2h, anda 15 minutos de bicicleta até o ponto de ônibus e pega duas conduções para chegar ao Mercado São Pedro, em Niterói. São quase seis horas diárias só no trânsito. Morador de Campo Grande, no Rio, o sorridente trabalhador afirma que ao longo dos 25 anos em que faz o trajeto o trânsito piorou muito, principalmente na volta para casa, quando pega o horário do rush. Muito simpático e ágil na limpeza das sardinhas, ele conta que não pretende deixar o serviço, do qual tem orgulho

Maíra Rodrigues%2C de 27 anos%2C faz parte dos 64%2C3% de pessoas do Leste Fluminense que trabalham e moram na mesma cidadeUanderson Fernandes / Agência O Dia

“Já tive oferta de emprego perto de casa, mas o salário não compensava. Trabalho com peixes desde os 16 anos, não vou fazer outra coisa. Sou niteroiense, mas há 25 anos minha mulher quis voltar a Campo Grande. No início, eu ficava aqui na casa das minhas irmãs e só voltava no fim de semana, mas agora prefiro ir e voltar todos os dias”, conta ele. Apesar de usar o transporte de madrugada, Bráz também reclama do trânsito. “Em 25 anos, mesmo com mais ônibus e com ar-condiconado, o trânsito piorou muito. Tem mais engarrafamento”, conta ele, que perde mais tempo parado na Avenida Brasil.

36% dos niteroienses atravessam ‘poça’

A arquiteta Maíra Rodrigues, de 27 anos, faz parte dos 64,3% de pessoas da Região Leste Fluminense que trabalham e moram na mesma cidade em que vivem, de acordo com a pesquisa do Sebrae. Moradora de Icaraí, ela trabalha no Centro de Niterói e leva 15 minutos de casa ao trabalho mesmo indo de ônibus. “Isso é um sonho, não é. Tive oportunidade de trabalhar na Lagoa, no Rio, mas levei mais de duas horas no trânsito só para a entrevista e nem era horário de rush. Desisti”, contou ela.

Mesmo tendo a certeza de que no Rio o crescimento profissional seria maior, ela preferiu abrir mão de trabalhar na cidade grande para ter mais qualidade de vida. “Caminho na praia, vou à academia e ainda me sobra tempo para fazer trabalhos pessoais. Aí, nos fins de semana eu estou mais folgada”, revelou a arquiteta. A opção por trabalhar em Niterói veio da experiência de quando era estudante do Fundão, na Ilha do Governador. “Saía de casa às 5h e depois da faculdade ia pro estágio no Centro do Rio”, lembrou ela.

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