Com os constantes assaltos, atravessar a Ponte de ônibus virou missão de risco

Passageiros relatam histórias de horror

Por O Dia

Niterói - Na última terça-feira pela manhã um bandido armado fez os passageiros da Viação 1001, que faz a linha Itaipu-Castelo, viverem momentos de terror. Ele agiu enquanto o veículo passava pela Ponte e levou celulares, tablets, joias e dinheiro de cerca de 50 pessoas. Um deles, que era idoso, chegou a levar uma coronhada porque reclamou da agressividade da ação. Infelizmente, não se trata de um caso isolado. E os constantes ataques já estão mudando a rotina de quem precisa atravessar a Baía de Guanabara de coletivo.

A cada dia, 20 assaltos a ônibus são registrados no Estado do Rio, 95% deles na Região Metropolitana. Só na capital, o crime cresceu de 679 registros no primeiro trimestre de 2013 para 1.220 casos entre janeiro e março deste ano, um aumento de mais de 79%, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), da Secretaria de Segurança.

A cada dia%2C 20 assaltos a ônibus são registrados no Rio%2C 95% deles na Região Metropolitana. Passageiros contam que boa parte dos crimes acontece na PonteEstefan Radovicz / Agência O Dia

No caso dos ônibus intermunicipais, a 1001 é uma das preferidas dos criminosos porque a passagem é mais cara: R$ 11,50 (o que sinaliza que o passageiro tem mais poder aquisitivo). Os assaltantes, normalmente, pagam para entrar, enquanto os passageiros rezam para sair ilesos.

“Fui assaltada em fevereiro com arma na cabeça. O ônibus estava lotado e o bandido roubou todos os passageiros. Ele levou meu celular, mas não conseguiu as joias porque tive tempo para esconder. Não pego mais esse ônibus. Agora, atravesso de barca e pego outro coletivo em Niterói”, contou uma advogada que, por medo, prefere não se identificar.

O ônibus em que ela estava foi atacado por volta das 20h na Leopoldina, onde os criminosos costumam saltar depois de fazer a limpa. O horário também é o preferido dos bandidos porque os coletivos estão cheios de trabalhadores voltando para casa.

“O bandido ainda ameaçou matar o motorista se ele subisse a Ponte. Ele mandou que parasse na subida da Ponte para ele continuar roubando e poder descer. Fez tudo com muita calma. É um absurdo”, indignou-se a passageira.

Minutos antes do assaltante entrar no ônibus em que ela estava, ele havia roubado passageiros de outra linha da 1001, que vai para Charitas. “Descobri isso na delegacia porque lá já estavam as outras vítimas dele”, lembrou ela, que tempos depois viu o criminoso na Leopoldina. “Eu estava passando de carona e o vi, mas não havia nenhuma patrulha da polícia para avisar”, contou.

A advogada foi assaltada um mês depois de um engenheiro, que também não quer se identificar por medo. Ele teve o celular e o cordão roubados por dois bandidos, em janeiro, que também entraram na Leopoldina no 1001. “Eles pagaram passagem e até sentaram. Eram bem vestidos até. Quando o ônibus andou, anunciaram o assalto e desceram no ponto seguinte. Estavam com a mão dentro da bolsa. Não sei se estavam armados”, revelou. “Mas, fazer o quê. A gente acaba se acostumando. Tenho que seguir a vida”, disse.

Para o engenheiro falta planejamento na ação da polícia. Ele contou que, antes de ser assaltado, já havia escutado muitas histórias de roubos nos ônibus da 1001.

“Sei até de um grupo de pessoas que passaram a voltar para casa de táxi. Todo mundo sabe desse tipo de ação nas linhas da 1001. E ninguém desce de um ônibus que vai para Niterói na Leopoldina. Isso não é comum. É só ficar ali e esperar o bandido descer que vai conseguir prender”, sugeriu.

Motoristas dão dicas para evitar a ‘limpa’

Os assaltos têm sido tão rotineiros no vai e vem dos ônibus da 1001 que os motoristas até passaram a dar dicas aos passageiros de como se proteger dos ataques. Guardar o celular, usado para ouvir música, durante a viagem, é uma delas. Os motoristas contam que alguns bandidos entram e saem dos veículos muito rápido e pegam o que veem pela frente, o que for de mais fácil acesso, por isso os telefones são os objetos preferidos.

Mas nem só os passageiros são vítimas dos criminosos. Os motoristas também. Além de roubar os pertences dos trabalhadores, eles costumam levar os pertences deles e o dinheiro arrecadado com as passagens. “Eles fazem a limpa. E agora estão atacando a qualquer hora e dia”, contou um funcionário da 1001 que pediu para não ser identificado.

Segundo ele, os motoristas são orientados a não reagir e a manter a calma. “Não podemos colocar em risco nem a nossa vida e nem a dos passageiros, que estão sob nossa responsabilidade. É muito difícil”, reclamou.

Polícia diz que são ‘crimes pontuais’

Segundo a Polícia Civil, não há uma quadrilha especializada atuando nos ônibus que vão para Niterói, mas que esses ataques são ações pontuais e que os criminosos agem no oportunismo. Há, pelo menos duas, delegacias investigando esses crimes. A 17ª DP (São Cristóvão), responsável pelos casos que no sentido Rio — como o da última terça-feira —, e a 76ª DP (Niterói), que registra os roubos no caminho inverso.

Segundo a assessoria de imprensa da Polícia Civil, as duas unidades já identificaram e prenderam assaltantes de ônibus, no entanto, não disseram quantos. As câmeras de segurança instaladas nos coletivos têm ajudado a polícia a identifica-los.

O comando do 5º BPM (Praça da Harmonia), responsável pelo policiamento na Leopoldina, informou que possui um patrulhamento específico 24 horas para a área, e que a região ganhou duas duplas de policiais circulando em motos. Além disso, o batalhão também conta com o apoio do Grupamento de Policiamento Transportado em Ônibus Urbanos, que atua na Avenida Francisco Bicalho.

Por ser a Ponte uma rodovia federal, há uma base da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no acesso sentido Rio que também atua no combate à criminalidade. Segundo a assessoria de imprensa da PRF, os agentes fazem constantes operações nos acessos à via. Uma delas, a Cinturão, está em andamento nas principais vias do estado, o que inclui a Ponte. A ação tem até patrulhamento de helicóptero.

A assessoria de imprensa da Auto Viação 1001 informou que orienta os motoristas a não reagir e que colabora com as investigações fornecendo as imagens das câmeras dos ônibus para que os criminosos sejam identificados.

Já a assessoria da EcoPonte, concessionária que administra a via, informou que aciona a PRF sempre que consegue detectar um assalto. O Sindicato das Empresas de Transporte Rodoviário do Estado Rio de Janeiro afirmou ter um sistema de comunicação online com a Secretaria de Segurança.

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