Por paulo.gomes

Rio - A lei da física é clara: dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Sendo assim, se juntássemos os 283 mil veículos de Niterói em uma só garagem, ela precisaria ter uma área de 7,5 km², o equivalente aos bairros de Jurujuba, São Francisco e Charitas juntos. Assustador, não? Mas não é só isso, o niteroiense perde 2 horas e 11 minutos por dia em engarrafamentos, são dois dias inteiros (por mês) entre buzinas. E como tempo é dinheiro, são R$ 800 milhões virando fumaça ao ano, a chamada produção sacrificada, ou o que deixa de ser produzido durante os deslocamentos.

Área ocupada pela frota de Niterói equivale aos bairros de Jurujuba%2C São Francisco e Charitas juntosSeverino Silva / Agência O Dia

Os números fazem parte de um recente estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Segundo o especialista em competitividade industrial do órgão, Riley Rodrigues, o país perde por ano cerca de R$ 111 bilhões somente com o vai e vem dos trabalhadores de casa para o trabalho. O material tem por base os números do PIB municipal, divulgado em 2012 pelo IBGE.

Ainda de acordo com Riley, o modelo ideal seria que a distância entre o local de descanso e o de labuta fosse de no máximo 10 km, cerca de 30 minutos de ida e volta. Mas o empresário José Rocha, de 53 anos, tem que percorrer 65 km de sua casa, em Piratininga, a seu trabalho, em Nova Iguaçu. Para ele, os piores pontos do percurso são Ponte e Linha Vermelha.

“Com o trânsito livre faço o trajeto em pouco mais de uma hora, mas muitas vezes levo até três horas. Para não perder tanto tempo, agora durmo duas vezes na semana na empresa”, diz.

Representante comercial, Patrick Innecco, 24, optou por comprar uma moto para transitar entre Engenho do Mato e Icaraí, cerca de 17 km. Segundo ele, são várias economias. “Além de ter IPVA mais barato e ter menos custo de combustível, chego bem mais rápido nos lugares”, conta.

Riley explica que Niterói sofre o impacto por ser a última cidade antes da Ponte. Ele aponta algumas soluções. “É preciso investir para levar trabalho para onde as pessoas moram e incentivar o aumento da ocupação habitacional nas regiões onde está o emprego. Além de aumentar a oferta de transporte em massa, como o projeto do metrô na Região Metropolitana. Outro ponto importante é ampliar as linhas da estação hidroviária”, destaca.

Como muitos que moram do lado de cá da ‘poça’, o estudante Moisés Mariano, 23, diz que escolhe como vai para o Rio de acordo com o trânsito. Ele pega ônibus na Roberto Silveira. “Quando o trânsito está razoável eu levo 35 minutos para chegar na UERJ, e quando a Ponte está muito pesada eu vou de barca”, fala.

Apenas 13 quilômetros dividem Niterói do Centro do RioSeverino Silva / Agência O Dia

Carros levam 24% da população ... e ocupam 79% do espaço das vias

Para a secretária de Urbanismo e Mobilidade Urbana, Verena Andreatta, o trânsito de Niterói é pesado por conta do planejamento da cidade, que primeiramente foi pensada para pedestres e bondes. No entanto, os últimos 40 anos mudaram totalmente o cenário. O crescimento das Regiões Oceânica e Pendotiba, por exemplo, levou mais carros para as ruas, sem novos investimentos em sistemas de transporte.

De acordo com a prefeitura, hoje os automóveis transportam 24% da população no horário de rush, mas ocupam 79% de todo o espaço de circulação da cidade. Já os coletivos, que transportam quase metade da população, consomem 19% dos espaço de circulação. “Assim, um dos principais desafios para a mobilidade é estruturar o sistema de transporte público coletivo, especialmente nas duas regiões de expansão da cidade, que dependem do automóvel. Oferecer vantagens para outros modos de transporte.”, afirma.

O Largo da Batalha é um dos maiores problemas em termos de gargalo. Cerca de 68 mil habitantes da Região Oceânica têm de passar por ali para acessar qualquer outro local. “A TransOceânica, que tem prazo de conclusão para agosto de 2017, deve diminuir o fluxo do Largo da Batalha em 20% no horário de pico”, disse Andreatta.

Outros pontos críticos da cidade são Alameda São Boaventura, Avenidas Jansen de Melo, Marquês do Paraná e Roberto Silveira. A secretária explica que a estratégia é desafogar as pistas com atuação de agentes e operadores colocados ao longo dessas vias.

A instalação de ciclovias também vem dando resultados. Já foi identificado aumento no número de ciclistas nas Av. Roberto Silveira, Amaral Peixoto e até nas barcas. E há projetos de criação de novas ciclovias ainda nesse semestre em Icaraí, Centro e na Região Norte.

Reportagem de Marina Rocha 

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