Novo lar, nova realidade para 29 famílias

Núcleo da UFF está em fase final do projeto de revitalização da comunidade Mama África, em São Domingos

Por O Dia

Niterói - Há 23 anos Fernanda Carlinda se mudou para o número 48 da Rua Passo da Pátria, em São Domingos. Área nobre, um dos espaços mais valorizados da cidade. Porém, ela não vive nos prédios luxuosos, é vizinha deles. É que a artesã é uma ex-interna de orfanato, saiu de lá sem ter para onde ir... e aí... Bem, aí o jeito foi ocupar uma área que estava sem uso. Resultado: foi do conjunto de histórias semelhantes a dela que surgiu a Comunidade Mama África.

Moradores da comunidade Mama África aprovam a revitalização do espaçoJoão Laet / Agência O Dia

Por lá, são 56 pessoas de 29 famílias, dividindo um espaço que parece ser invisível aos olhos do Poder Público, mas esta falta de estrutura parece estar com os dias contados.

Há quatro anos os profissionais do Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos (Nephu) da UFF estão desenvolvendo um projeto de revitalização da área. A parte técnica está em fase final e já há uma conversa com a prefeitura para tornar a obra parte do programa Minha Casa, Minha Vida, que é custeado pela Caixa Econômica. 

Coordenadora do Nephu, Regina Bienenstein explica que o processo é demorado, pois há o cadastramento dos moradores e todo o plano é feito em conjunto com eles. “Hoje eles vivem em cômodos sem ventilação, alguns compartilham banheiro e têm medo do despejo. O nosso projeto prevê a construção de dois prédios de cinco andares, com apartamentos de um e dois quartos”, disse.

O arquiteto Daniel Sousa acredita que o projeto de revitalização da Mama África deve servir como referênciaJoão Laet / Agência O Dia

Os moradores estão empolgados com a reforma, que terá áreas em comum como lavanderia, ateliê e biblioteca, que hoje funciona em um quartinho apertado e bem quente. “E a gente vai se sentir mais seguro, porque como hoje é aberto, volta e meia tem traficante querendo entrar aqui”, contou Fernanda Carlinda.

Membro do Nephu e presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil de Niterói, Daniel Sousa diz que a iniciativa “vai contra os projetos que distanciam a população de baixa renda de áreas bem estruturadas.”A Prefeitura informou que só aguarda a comprovação de viabilidade da Caixa e do Nephu para dar seguimento à iniciativa. 

15 mil pessoas em condições precárias

E tem mais um problema para a conta: o déficit habitacional. De acordo com a Fundação João Pinheiro, a cidade tem 15.372 pessoas sem-tetos ou vivendo em residências precárias.

Coordenadora do Nephu, Regina Bienenstein diz que levar a proposta de reformar espaços abandonados para habitação de interesse social para outros pontos da cidade poderia ajudar. “Um prédio abandonado em um local com estrutura não está cumprindo sua função social prevista no Estatuto da Cidade”, afirmou.

Depredação preocupa moradores

“Quem tem fome, tem presa.” A frase do sociólogo Betinho pode ser facilmente aplicada à questão da habitação. É o que ocasiona cenas como a fotografada por Teresa de Carvalho na última semana.

Moradora de Icaraí, ela flagrou adolescentes aparentemente de rua em cima do telhado do antigo Cinema Icaraí.
Equipes da UFF já identificaram os possíveis pontos de invasão. Mas... enquanto as ações não se concretizam...

Deslizamentos também preocupam

Outra comunidade que ganhou a atenção da UFF foi a Coronel Leôncio, na Engenhoca. Em parceria com a Defesa Civil, a equipe do programa UFF SOS Comunidade, formada por professores e alunos de diversos cursos, elaborou um mapa que aponta as casas que estão próximas a encostas e correm risco de deslizamento. Eles visitaram 609 residências, das quais 317 estão próximas a áreas perigosas.

“Muitas casas na região da Engenhoca já até são condenadas pela Defesa Civil, mas os moradores não saem. Eles não têm pra onde ir, criaram raízes e não querem se mudar”, disse a supervisora do SOS Comunidade, Catarina Ribeiro.

Os dados da pesquisa entrarão para uma plataforma que vai monitorar em tempo real as áreas de risco geológicos da região. A ferramenta foi desenvolvida pelo professor Elias Arruda e funciona com informações coletadas automaticamente por pluviômetros, radares meteorológicos e dados de previsão por satélite de instituições, formando um mapa que será enviado para a sala de monitoramento da Defesa Civil.

A ideia é instalar o método em outros pontos da cidade.

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