Bastidores da diplomacia e a queda do ministro Patriota

Vinda de opositor de Evo Morales já era negociada, mas presidenta não tolerou só saber da ação quando político já estava no Brasil

Por O Dia

Rio - A operação de transferência de La Paz para Brasília do senador boliviano Roger Pinto Molina por um diplomata brasileiro — Eduardo Saboia — levou a presidenta Dilma Rousseff a trocar seu ministro das Relações Exteriores nesta segunda-feira.

Apesar de o parlamentar ter ficado asilado na embaixada brasileira em La Paz desde maio de 2012 e de sua vinda estar sendo negociada há meses, a presidenta não tolerou ter sido informada da ação apenas quando o opositor de Evo Morales já estava em solo brasileiro — ele chegou no sábado à noite. Por isso, Antonio Patriota passou a ser o representante do Brasil junto à ONU, cargo que era ocupado por Luiz Alberto Figueiredo Machado, novo chanceler brasileiro.

Ex-ministro agora é o representante do Brasil junto à ONU%2C cargo de aparente prestígio%2C mas que representa um retrocesso em sua carreiraLéo Corrêa / Agência O Dia

Apesar de o novo cargo de Patriota parecer ter algum prestígio, a troca é vista nos bastidores da diplomacia brasileira como um grande retrocesso na carreira do agora ex-ministro. No entanto, a versão oficial é que ele pediu demissão em solidariedade à ação de seu subordinado. Nos bastidores da diplomacia, ainda não se sabe se isso é verdade ou se até Patriota só soube da ação quando já estava em curso. Como é de praxe, a presidenta soltou nota oficial para agradecer “a dedicação e o empenho do ministro Patriota nos mais de dois anos que permaneceu no cargo”.

A saída do ministro foi anunciada após reunião de 50 minutos que ele teve com a presidenta. Horas antes, o encarregado de Negócios do Brasil na Bolívia, Eduardo Saboia, que acompanhou Molina desde La Paz, já havia sido chamado para esclarecimentos no Itamaraty. Em entrevista logo depois de chegar ao Brasil, o diplomata declarou que a decisão de retirar Molina do país havia sido dele. Segundo Saboia, o senador boliviano estava deprimido e “já falava em suicídio” — o boliviano passou 454 dias sem sair da embaixada brasileira porque foi condenado a um ano por crimes de corrupção e não tinha um salvo-conduto de seu governo.

Nesta segunda, o partido do boliviano divulgou, de La Paz, carta em que o parlamentar — hospedado em Brasília — agradece a Saboia e ao embaixador do Brasil em La Paz, Marcelo Biato, pelo apoio. Biato está de férias. Por isso, Saboia comandava a embaixada em La Paz.

Difícil vai ser explicar que Saboia agiu por conta própria

O novo ministro, Luiz Alberto Figueiredo Machado, 58 anos, caiu nas graças da presidenta Dilma Rousseff quando foi secretário-executivo da Comissão Nacional da Rio+20, ano passado. Agora, terá como primeira missão acalmar o governo boliviano, que ontem, antes da queda de Antonio Patriota, já ameaçava com o pedido de extradição de Roger Pinto Molina.

Novo ministro%2C Luiz Alberto Figueiredo terá como principal desafio conduzir o que será feito com MolinaAgência Brasil e Reuters

Será o novo chanceler quem terá que responder a todas as perguntas que a diplomacia boliviana fez ontem ao governo brasileiro sobre exatamente como havia sido feita a transferência do opositor de Evo Morales para território brasileiro. A mais difícil deverá ser, se for esta a estratégia que a presidenta Dilma Rousseff adotar, convencer as autoridades bolivianas de que Eduardo Saboia agiu por conta própria.

Nos bastidores da diplomacia brasileira ontem, o que mais se comentava é que é praticamente impossível um diplomata de carreira tomar uma decisão dessas sem que seus superiores tivessem conhecimento.

O novo chanceler estava em Nova York, onde fica a sede da ONU, quando soube de sua nomeação, e chega ao Brasil nesta terça.

‘Vai devolver o cara à Bolívia?’

Para o cientista político Clóvis Brigagão, a presidenta Dilma Rousseff pode estar diante de uma crise política e diplomática nunca antes vista na história do Brasil — para usar uma expressão cara ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais amigo de Evo Morales do que a sucessora, como lembra o acadêmico.

“Ela sai desgastada. Ela foi forçada a demitir seu chanceler, que fez essa ‘patriotada’. O que vai fazer com o senador? Essa é a questão. Vai devolver o cara à Bolívia? Duvido. Fica feio, seria um desgaste diplomático e político”, raciocina Brigagão.

Mas o cientista político acha, ainda, possível, que Dilma possa ter ficado indignada porque talvez preferisse que o opositor de Evo Morales ficasse mesmo em seu país. Só que agora é tarde.

Últimas de _legado_Brasil