Viúva de Jango: funeral foi ‘um ato de coragem’

Restos mortais de ex-presidente recebem honras militares de chefe de Estado em Brasília

Por O Dia

Brasília - Que não se perca tempo com o que pode haver de polêmica sobre o regime militar que se instalou no Brasil na década de 1960. A cerimônia que se viu ontem em Brasília, comandada pela presidenta Dilma Rousseff, presa e torturada nos ‘Anos de Chumbo’, emocionou.

Jango recebe honras militaresDivulgação

Ao lado da ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart, 73 anos, Dilma recebeu os restos mortais do ex-presidente João Goulart, e deu a Jango o que a ditadura negou quando ele morreu, em 1976, exilado na Argentina depois de deposto em 1964: um funeral com honras militares de chefe de Estado.

Ao lado de Dilma, também estavam ministros, parentes de Jango e três ex-presidentes: Luiz Inácio Lula da Silva, José Sarney e Fernando Collor de Mello — este último foi o primeiro presidente eleito depois da ditadura, mas acabou afastado por impeachment. Fernando Henrique Cardoso não foi porque está doente. O funeral começou com duas horas de atraso porque a exumação em São Borja (RS) demorou mais do que o esperado.

As lágrimas correram no rosto de Tetê Goulart mais de uma vez. Mas foi no momento em que ela e Dilma foram ao caixão com flores que a ex-primeira-dama desabou e foi consolada pela anfitriã — a ex-guerrilheira se manteve firme, mas não conseguiu disfarçar a emoção contida. Tetê chorou mais quando lhe foi entregue a bandeira brasileira que cobria o caixão e foi dobrada por militares.

Tetê Goulart estava ao lado de Jango quando ele morreu no exílio na Argentina

Quando morreu na Argentina em 1976, Jango tinha a seu lado a mulher, Maria Thereza Goulart, que já foi considerada uma das mulheres mais lindas num mundo acostumado a se dobrar à badalada Jackie Kennedy. Era uma menina de 17 anos quando se casou com o homem duas décadas mais velho e até hoje acha que o que matou o marido foi mesmo o coração debilitado e seu péssimo hábito de ignorar as ordens dos médicos.

Em entrevista ao jornal ‘Zero Hora’ em outubro, Tetê falou da vida de glamur que viveu enquanto foi primeira-dama: “O Jango não gostava de batedores, mas eu gostava, sim. Quando chegava de viagem, e o meu carro ia me esperar no aeroporto, mandava acender o botão. Eu gostava, fazer o quê? O Jango ficava louco comigo.”

Embora agora ache que a exumação pode ajudar a tirar uma dúvida histórica, em outubro Tetê declarou que achava todo o processo “muito triste”. A ex-primeira-dama também contou como foi o histórico comício do marido na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, pouco antes do golpe que o derrubou: “Foi tudo muito tenso. Já havia aquele clima horrível. Ali já era o final. Várias pessoas pediram para ele não fazer o comício, mas ele disse que ‘não’. ‘Aconteça o que acontecer, eu vou fazer’, ele disse. Ele já sabia o que estava por vir.”

Investigação só termina daqui a um ano

A exumação dos restos mortais em São Borja (RS) demorou mais de 19 horas e foi feita por uma dúzia de técnicos brasileiros e estrangeiros. O grupo busca pistas que possam confirmar uma velha suspeita da família e de correligionários de Jango: apesar de a causa da morte oficial ser ataque cardíaco, o ex-presidente teria sido envenenado pela Operação Condor, montada na América do Sul para combater opositores dos regimes militares.

Em Brasília, os restos mortais serão analisados no Instituto Nacional de Criminalística, e o material seguirá para dois laboratórios fora do país. As investigações feitas pelo Ministério Público Federal e pela Comissão Nacional da Verdade só deverão acabar no fim do ano que vem.

Por conta da demora da exumação no Sul, a cerimônia de ontem foi rápida — cerca de 20 minutos — e, para manter o tom solene, não houve discursos. Antes, a presidenta se manifestou só no Twitter: “Como chefe de Estado da República Federativa do Brasil, participo da recepção aos restos mortais de João Goulart, único presidente a morrer no exílio. Este é um gesto do Estado brasileiro para homenagear o ex-presidente João Goulart e sua memória. Essa cerimônia que o Estado brasileiro promove é uma afirmação da nossa democracia. Uma democracia que se consolida com este gesto histórico.”

Tetê Goulart falou depois: “Ele não teve esse momento de fazer uma autópsia. Eu acho que poderia ter feito até, mas ninguém foi capaz de fazer. Eu acho que é um ato de coragem esse reconhecimento, também pelo presidente que ele foi. Eu acho que ele merecia.”

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