Por joyce.caetano
São Paulo - O cancelamento de uma exposição de fotos do francês Yann Arthus-Bertran no começo deste mês foi a gota d’água para que Teixeira Coelho, curador-chefe do Museu de Arte de São Paulo (Masp), defendesse publicamente a restrição de pessoas no vão livre ao recomendar a instalação de um cercado em um dos pontos turísticos mais conhecidos da cidade. A repercussão negativa de suas declarações chegou à direção do museu, que ao iG admitiu a ocorrência de “vandalismo” por parte de moradores de rua e usuários de droga, mas negou a intenção de cercar o entorno do prédio.

Irritado com a destruição de fontes de iluminação das fotos de Bertrans por supostos dependentes químicos, e o consequente cancelamento da mostra, Coelho afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que todos os pedidos feitos pelo Museu para cercar o vão livre foram recusados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), “um atraso, pois a São Paulo de hoje não é a mesma da época em que o Masp foi inaugurado", disse ele na ocasião.

A polêmica chegou à internet. No Facebook, a página “No meu vão ninguém mete a mão” já ganhou 10,2 mil apoiadores, enquanto um abaixo-assinado online “Contra o cercamento do vão livre do Masp” recolheu 7.600 assinaturas. Desde então, Coelho se recusa a falar sobre o assunto.

Criador da pagina na rede social, o arquiteto Alessandro Sbampato acredita que cercar o vão livre impediria a liberdade de manifestação dos paulistas, que utilizam o espaço como marco inicial de protestos. “Eu acho, particularmente, que o que está por trás dessa tomada de posição do Estadão é essa questão: o cerceamento da liberdade de manifestação em espaços públicos.”
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De fato o museu sugeriu o cercamento provisório do vão livre entre 2006 e 2007. O gradil seria instalado de manhã e retirado à noite. Mas o Iphan rejeitou os pedidos ao lembrar as condições exigidas para que o terreno onde hoje fica o museu fosse doado pela prefeitura no final da década de 1950: a vista para o Vale do Anhangabaú - marca do então Belveder Trianon - deveria ser preservada.
Ao iG, a ministra da Cultura Marta Suplicy saiu em defesa do Iphan ao classificar de “desespero” as declarações do curador do Masp. “Entendo o desespero do curador para fazer tal afirmação em virtude do número de drogados e vendedores no vão do Masp. É tão absurda quanto lamentável sua afirmação.”
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Em nota oficial, o Masp confirma que “os espaços do vão livre têm sido acessados por pessoas que promovem atos de vandalismo, atentados a moral e o uso do local de forma indevida”, mas descartou o cercamento do espaço ao lembrar que “a segurança e controle de atividades ou atos ilícitos cabe única e exclusivamente ao Poder Público”.
Para a ministra, Teixeira quis transferir a responsabilidade. “Nada de cerca no vão do Masp. O necessário é que o Estado cumpra sua responsabilidade e coloque policiamento 24 horas por dia para que o vão seja usado para livre trânsito ou exposições, como sempre foi.”
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Procurada pela reportagem, a Polícia Militar afirma que foi alertada pelo gerente de segurança do Masp sobre “o problema de usuários de drogas no vão livre” . “Após conhecimento da situação, a Polícia Militar intensificou as rondas naquele local, utilizando o efetivo da Base Comunitária Móvel e de patrulhas à pé que trabalham na Avenida Paulista. Algumas pessoas já foram conduzidas ao distrito policial por conta de uso de entorpecente.”
“Espero que a gente consiga gerar um renascimento do vão”, diz Sbampato. “Que evolua a discussão sobre a necessidade do museu voltar a ser um organismo vivo de geração de pensamento, e não uma coleção de quadros e esculturas.”