Por bianca.lobianco

Espírito Santo - Moradores da Região da Serra, um dos locais mais afetados pelas chuvas que atingiram o estado do Espírito Santo, acusam a Defesa Civil de negligência. Segundo eles, os profissionais não apareceram nos bairros Parque de Jacaraípe e São Patrício entre o dia 19 e o dia 26 deste mês. De acordo com relatos, a água chegou a 1,60 metro e inundou casas e ruas. Moradores tiveram que usar barcos para socorrer as pessoas. Na madrugada de quinta-feira um homem foi encontrado morto por populares. Um número de telefone foi disponibilizado pela Defesa Civil, mas ainda de acordo com os moradores, as chamadas são ignoradas.

"A Defesa Civil nem apareceu. A única vez que eles passaram, uma vizinha que foi acolhida em uma casa de dois andares e estava com uma criança de três anos chamou e eles não atenderam. Eles fingiram que nem ouviram", disse a gerente de projetos Karla de Fátima, de 43 anos. Ela complementa ainda que quem ajudou a mulher foram os vizinhos. "Quem fez o resgate dela para que ela fosse até onde não tinha água foram as pessoas daqui. Nem os bombeiros apareceram", finaliza.

Temporal no Espírito Santo atinge 54 municípios e deixa bairros da Região da Serra debaixo d'águaLeitora Janaína Sanches / Agência O Dia

Em meio ao caos que se instalou por conta do temporal, muitas pessoas foram para a casa de parentes, outras foram para a casa dos vizinhos onde não ocorreu alagamento. Segundo os moradores, eles têm recebido ajuda da Igreja Católica do Sagrado Coração de Jesus, cujos integrantes fizeram um mutirão recolhendo roupas e distribuindo comida e água potável.

Durante o resgate de moradores, um dos vizinhos, que é diabético, se machucou. "O pé dele inchou e as pessoas o levaram para o Hospital Jaime Santos Neves", contou a gerente de projetos.

Moradora tenta resgatar animais que estavam se afogando em bairro da Região da SerraLeitora Janaína Sanches / Agência O Dia

Janaína Sanches, de 31 anos, moradora da Rua Santa Maria, no bairro Jardim Atlântico, afirmou que fez seis ligações para a Defesa Civil, mas a família não recebeu nenhuma assistência. Seus sogros, de 68 anos e 69 anos, estão abrigados em sua casa, já que a deles foram completamente inundadas.

"Só deu tempo de salvar as roupas e os documentos. Perdemos dois carros, um deles e um da minha cunhada, que não têm seguro. Meu sogro está todo machucado", relatou. 

Segundo ela, os próprios moradores tiveram que retirar as correspondências dos Correios. "A prefeitura apareceu domingo com um barco e atendeu apenas um chamado de uma grávida desabrigada no colégio, depois sumiu. Negou resgate a uma vizinha com uma criança de colo".

"Além do caos da inundação, ainda tem a preocupação com os bandidos saqueando casas e caminhões de mantimentos. Ninguém teve Natal. Dia 25 estávamos nadando na água suja ajudando pessoas, levando quentinhas e água mineral", conta Janaína, que saiu na rua de barco para resgatar também os animais que estavam se afogando.

Desespero por água potável

Moradores que saem nas ruas para distribuir água potável e para ajudar os desabrigados se veem em uma situação de guerra: "Você sai na rua com um garrafão de água e as pessoas ficam desesperadas pedindo. Dá vontade de chorar", conta uma moradora, que diz que o preço do galão de água subiu para R$ 22,50. Em muitos municípios o abastecimento de água foi afetado, fazendo com que moradores ficassem quatro dias sem água. 

Possível protesto

Muitos moradores estão organizando um protesto como forma de expressar sua revolta pelo descaso que ocorre nesses bairros. A previsão é de que assim que a água escoar e eles conseguirem voltar para suas casas, todo o material que foi perdido com a inundação será colocado na avenida principal, interditando a passagem, a fim de chamar a atenção das autoridades.

Morador enfrenta rua alagada em bairro do Espírito SantoLeitora Janaína Sanches / Agência O Dia

Defesa Civil nega acusações e diz que atua com nove barcos na região

Questionado sobre as ações da Defesa Civil nestes bairros, o coronel Renato, secretário de Defesa Social da Serra do Município, afirmou que desde o início das chuvas as equipes vêm fazendo várias intervenções, como a retirada de centenas de pessoas de locais de riscos, aém de disponibilizar sete abrigos na região. Ao todo, na Região da Serra, já somam 670 desabrigados, sendo 270 só no bairro de São Patrício.

Sobre a distribuição de mantimentos, um coordenador em cada escola está fazendo o pedido de acordo com cada demanda. Cerca de 50 toneladas de alimentos já foram doadas aos bairros da região. 

Segundo o coronel, na manhã desta sexta-feira, duas equipes fizeram uma varredura nos dois bairros para descobrir por que a água não estava escoando. Desde a trégua das chuvas, o nível desceu apenas 40 centímetros. A Defesa Civil reconheceu que no dia 19, dia do início do temporal, não atuou com os barcos, alegando que foi pega de surpresa, mas que nos dias que se sucederam fez uso de nove barcos para atender a população da Serra.

Números atualizados 

Segundo dados atualizados pela Defesa Civil nesta sexta-feira, 23 pessoas morreram por conta do temporal e duas pessoas estão desaparecidas no município de Baixo Guandu. O número de cidades afetadas por conta da chuva subiu para 54.

Você pode gostar