Por bferreira

Rio - Antônio Fernandes Marques da Silva e Nair Maria Antunes eram um casal típico da década de 60 no Rio. Ele, um bem-sucedido executivo português do ramo de alimentação, não permitiu que a mulher trabalhasse depois que se casaram. Nair abandonou o emprego para cuidar da casa e do casal de filhos, e os dois viveram mais ou menos em paz. A não ser por uma certa incompatibilidade quando o assunto era política.

Depois que Jânio renunciou em 1961, Brizola mobilizou os gaúchos para garantir a posse de JangoFoto%3A Álbum de família

Para Antônio, o que aconteceu no dia 1º de abril de 1964 foi uma “revolução”. Para Nair, foi um “golpe”. Antônio defendia o jornalista Carlos Lacerda com todas as suas forças e achava, como o governador da Guanabara de 1960 a 1965, que o comunismo iria acabar desgraçando o Brasil. Para Nair, o melhor líder que o Brasil poderia ter era João Goulart, que formava com o cunhado Leonel Brizola uma dupla que Lacerda não suportava e atacava ferozmente. No Brasil de Antônio e Nair não havia meio-termo, como na Guerra Fria que dividiu o mundo. Era, de certa forma, uma metáfora antecipada do que o presidente americano George W. Bush diria em 2001 depois dos ataques de 11 de Setembro: “Ou vocês estão conosco ou contra nós.”

>>> FOTOGALERIA: Brizola lidera a 'Campanha da Legalidade' para garantir a posse de Jango em 1961

Filho do casal, o jornalista e executivo de Brasília Jorge Eduardo Antunes, 49 anos, conta que a mãe conseguia marcar a posição sem provocar grandes brigas com o marido. Mas, depois que a filha Vera Lúcia voltou socialista de uma viagem a Portugal em plena Revolução dos Cravos (1974), Nair, como explica Jorge, “percebeu que não estava mais sozinha” e passou a defender a adolescente de 17 anos nas brigas com o pai. “Minha mãe falava: ‘Ela tem o direito de pensar o que quiser’. Meu pai respondia: ‘Não tem, não. Ela é igual ao Chico Buarque, comunista de beira de piscina.” Em 1979, ano seguinte à morte do pai, Jorge ganhou da mãe o livro ‘Socialismos Utópicos’. Nair morreu este ano.

Quando os militares tomaram o poder em 1964, Lacerda estava entre os que queriam ver Jango pelas costas. Mesmo com o passado de jovem comunista, o governador da Guanabara já tinha rompido com a chamada ‘esquerda’ e acreditou na promessa dos generais de fazer eleição para presidente em 1965. Em maio de 1964, foi à Europa para falar ao mundo que o Brasil estava em ‘boas mãos’. Mas a eleição não veio, e Lacerda deu meia volta,volver. Em 1967, ele se aproxima de Jango e do ex-presidente Juscelino Kubitschek para formar a Frente Ampla. Em uma entrevista, Lacerda explicou: “O perigo do passado agora é um aliado da mesma luta que sempre travei: pela democracia e pelo progresso do Brasil.” O ex-governador estava convencido de que os militares queriam “entregar o Brasil a grupos econômicos americanos”. A essa altura, Lacerda — que morreu em 1977, antes de ver restabelecidos seus direitos políticos — já tinha o apelido de Corvo.

Rodrigo Lacerda, neto do político, conta: “Ele se sentiu usado, se sentiu enganado pelos militares. Meu avô morreu amargurado por não ter pegado o embalo do governo na Guanabara para implantar seus projetos no Brasil.”

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Brizola era casado com uma irmã de Jango, Neusa. Em 1961, quando Jânio Quadros renunciou enquanto seu vice estava na China, os militares ensaiaram um golpe no Brasil, mas Brizola disse que se preciso reagiria a bala para garantir a posse de Jango. Foi a ‘Cadeia da Legalidade’, que mostrou ao Brasil a capacidade de mobilização do homem que depois governaria o Rio duas vezes. Deixou dois herdeiros políticos. “Se não fosse Brizola, Jango não teria assumido a Presidência”, lembra Brizola Neto, ex-ministro do Trabalho. “Quer maior equívoco do que dizer que o Brizola é o culpado pela favelização e pela violência no Rio? Brizola é o cara que mais construiu escola no mundo”, diz o vereador Leonel Brizola Neto (PDT), referindo-se às críticas que o avô recebeu depois de governar o Rio.

As herdeiras

Filho de Antônio e Nair, Jorge Eduardo Antunes hoje se diz de “centro-direita” e não esconde que é o resultado da soma dos pais: “Se o candidato bom for o da esquerda, eu voto. Se for o da direita, eu voto.” Sua irmã morreu em 2006, anos depois de ver seu sonho realizado: o ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva eleito presidente. Vera Lúcia era petista. Jorge Eduardo é casado com a jornalista e empresária Andreia Salles, que se coloca mais à direita do que ele próprio. Os dois tiveram duas filhas. Uma tem 19 e faz Artes Cênicas na Universidade de Brasília. Seu sonho: fazer cenários de peças da Broadway, em Nova York, meca do capitalismo ‘imperialista ianque’, como diriam os companheiros comunistas dos anos 60. A outra filha, de 13 anos, diz a Jorge: “Pai, eu sei que você não gosta de comunismo, mas eu gosto da União Soviética.”

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