Coronel detalha tortura psicológica a militantes na ditadura

Locais usados para interrogar e matar presos políticos eram considerados ‘laboratórios’ pelos agentes da repressão

Por O Dia

Rio - O coronel reformado Paulo Malhães, o homem que revelou com exclusividade ao DIA ter sido um dos responsáveis pela operação montada para sumir com o corpo do então deputado federal Rubens Paiva, não se referia ao imóvel clandestino mantido pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Petrópolis como “Casa da Morte”. Ele chamava os locais usados para torturar e matar presos políticos de “laboratórios”. Só no estado, o militar também agiu em casas em Jacarepaguá, São Conrado e em outro imóvel na Região Serrana do Rio, usando técnicas de tortura psicológica.

A Casa da Morte%2C em Petrópolis%2C era utilizada nas sessões de tortura durante o regimeReprodução

A revelação foi feita à advogada Nadine Borges, da Comissão Estadual da Verdade, que elaborou um relatório com base no depoimento dado por Malhães em duas oportunidades. O primeiro deles foi dado no dia 18 de fevereiro. O segundo, no dia 11 de março.

Malhães recebeu a comissão de bermuda e chinelo no sítio onde mora, na Baixada Fluminense, cercado por cães e plantas. A casa mais próxima ficava a cerca de um quilômetro de distância. Nesse cenário, isolado de qualquer contato com a vizinhança, contou detalhes das táticas que usava durante a ditadura militar, onde atuou na comunidade de informações. Quando identificava um líder, o militar buscava informações sobre amigos e parentes do preso. E usava essas informações para torturá-lo. “Ele tratava de forma secundária a tortura física e até a morte. Descreve todas as situações como filosofia de guerra”, contou Nadine.

Em 20 horas de relato à Comissão Estadual da Verdade, Malhães economizava nos gestos e nas palavras. Mas quando relatava um episódio, o fazia com precisão e de forma detalhada. “Me choquei com tudo, porque sabia que estava diante de um torturador. Mas o mais chocante foi a crueldade dele. E a certeza que ele tem de que não vai ser responsabilizado. Ele diz que pode falar porque está anistiado. Mas ele alegou ter cometido crimes contra a humanidade. A obrigação do Estado é repensar a Lei da Anistia”, argumentou.

O militar disse, também, ter desenterrado o corpo do então deputado federal Rubens Paiva, preso em casa no dia 20 de janeiro de 1971 por agentes do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa) e entregue ao DOI-Codi, no Rio, onde foi torturado até a morte. Malhães disse que o corpo do deputado foi jogado em um rio, na Região Serrana, mesmo local usado para dar fim a outros cadáveres de mortos na ditadura militar.

O oficial reformado também admitiu ter participado da Guerrilha do Araguaia, na década de 1970, em dois momentos. Na sua primeira passagem, o objetivo era desmantelar a guerrilha. Na região, dispensou a farda. Disse ter se infiltrado e aprendido com os mateiros a identificar a presença humana. Como o terreno era úmido, descobriu que, quando mosquitos ficavam em volta das plantas, isso significava que pessoas tinham acabado de passar por lá.

Anos depois, voltou para participar da “operação limpeza”, para a retirada de restos mortais. Os corpos teriam sido jogados no Rio Araguaia, para acabar com a possibilidade de deixar qualquer vestígio. “Ele acredita que cumpriu a tarefa dele com êxito. Disse que não se arrepende e faria tudo de novo”, relatou Nadine.

Depois do longo período de conversa, ela disse ter se surpreendido com a quantidade de informações reveladas pelo militar. Segundo Nadine, o coronel reformado se empolgava quando falava sobre os serviços prestados no setor de inteligência.

Agora, Nadine espera contar com a colaboração do próprio Exército para verificar a veracidade do relato. “Se o Exército nos der a ficha funcional dele, poderemos saber se ele fez os cursos que disse ter feito em Foz do Iguaçu e Recife, por exemplo. O reconhecimento dessa tática tem que ser apurado e investigado pelas Forças Armadas de hoje”, exigiu.

Últimas de _legado_Brasil