O ovo da serpente

Vizinha da residência oficial do general Olympio Mourão em Juiz de Fora, Celma Nicodemus recorda o movimento atípico na casa onde, há 50 anos, uma reunião acertou os últimos detalhes do golpe com o governador de Minas, Magalhães Pinto, e o marechal Odílio Denis

Por O Dia

Juiz de Fora - "Juiz de Fora é uma ci­dade contornada por morros. É uma monta­nha daqui, outra de lá e um rio no meio. De um lado, não se consegue ter uma visão comple­ta do outro. Então o mineiro, que é um sujeito precavido, se pergunta: o que será que tem do lado de lá?” É assim que a mineira Celma Ni­codemos descreve a cidade onde morou durante a maior parte da vida. Ela não gosta de dizer a ida­de mas é possível imaginar, já que vive há 60 anos na mesma casa, na Rua Paula Lima, no Centro. Foi de lá que ela viu nascer os planos para o golpe de 1964, que derru­bou o presidente João Goulart.

Celma Nicodemus na sala de sua casa%3A eleitora da UDN não tinha ideia da conspiraçãoAlessandro Costa / Agência O Dia

Celma tem vivas recordações daquele verão, quando tinha 30 anos e passava o entardecer na varanda dos fundos vendo a noite chegar, de olho na movimentação do quintal da casa em frente: a re­sidência oficial do general Olym­pio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, e que, no dia 31, iniciaria o golpe enviando suas tropas para o Rio. Assinante do ex­tinto jornal ‘Tribuna da Impren­sa’, de Carlos Lacerda, eleitora da UDN, ela lembra em detalhes dos fins de semana em que viu o então governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, entrar com o carro oficial na casa do general. “Não foi na véspera que tudo acon­teceu. A movimentação começou em janeiro. Carros entravam di­reto para os fundos da casa, nem ficavam na rua. Era um silêncio absoluto. Acho que não tinha nem empregado em casa, só dava para ver o sombreado”, conta ela, que diz sequer imaginar que ali se tra­mava a deposição de Jango.

A observação de Celma soma-se aos episódios analisados pelo professor de História do Brasil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carlos Fico, em seu livro recém-lançado ‘O golpe de 1964’. Na obra, o pesquisador descreve “ilhas de conspiração”, entre elas a mineira como uma das mais ativas, e relata sobre a reu­nião ocorrida há exatos 50 anos entre o marechal Odílio Denis, o governador Magalhães Pinto e o general Olympio Mourão Filho.

“O general vinha conspirando há tempos. Mas esses três perso­nagens se reuniram nesse dia pela primeira vez, e é quando o mare­chal convence o governador do su­posto risco de Jango dar um golpe de esquerda. Foi ali que Magalhães Pinto autorizou a saída das tropas”, afirmou o professor. Em seguida, de acordo com a obra, os generais Arthur da Costa e Silva e Humber­to Castello Branco foram avisados dos preparativos do golpe em 31 de março, embora Costa e Silva duvi­dasse da iniciativa de Mourão.

A reunião entre as forças polí­tica e militar para derrubar Jan­go ilustrava bem um conturbado momento da política nacional. A avaliação da professora do Cen­tro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, Dulce Pandolfi, é a de que o PTB, no ano do golpe, foi o parti­do de maior ascensão nas eleições, mas não chegava a ser majoritário. “Era um momento de polarização, e isso se refletia na paralisia deci­sória do Congresso”, aponta.

Segundo a cientista social e pro­fessora da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), Maria Celina D’ Araujo, nesse momento de polarização e intolerância, em meio à Guerra Fria, o presidente João Goulart era um político sem apoios. “No parlamento, Jango era muito criticado pela esquerda, por não ter iniciativa suficiente para fazer reformas, e pelos conserva­dores, por ir rápido demais. Ele fica isolado e assim aposta em movimentos populares, vai para praça no Comício da Central, anis­tia os marinheiros, vai ao Clube dos Sargentos”, explica.

Clique na imagem acima para ver o infográfico completoArte%3A O Dia

Na avaliação da pesquisado­ra, não apenas os governadores do Rio, Carlos Lacerda, e Minas, Magalhães Pinto (ambos da UDN), além do governador de São Paulo, Ademar de Barros (PSP), estavam contra Jango, mas faltava a sus­tentação concreta da esquerda. “Jango não tinha também o poder da esquerda, não tinha Brizola (ex-governador do Rio Grande do Sul), Miguel Arraes (governador de Pernambuco), e uma série de lideranças que o criticavam por ser lento. Ficou isolado e foi aban­donado pelo seu próprio partido, o PTB. Todos se juntam contra o golpe depois, mas era tarde.”

Com o golpe consumado, ficou evidente a falta de organização para a resistência. Dulce Pandol­fi avalia que todos os partidos ti­nham sérios rachas internos e a esquerda achava que os golpistas não tinham força suficiente. “Se achava que as Forças Armadas estavam dividas, que a burguesia nacional não se articularia. Então, o golpe pegou todo mundo de sur­presa”, finaliza.

Governadores não resistiram

O ‘se’ não tem peso na História, mas acaso João Goulart tivesse resistido ao golpe, não encontraria apoio dos governadores. Dos 23 mandatários, apenas cinco foram cassados (Goiás e Mato Grosso ainda não  tinham sido divididos, além de quatro territórios sem relevância política). Em outras palavras, significa que 18 governadores estiveram, pelo menos num primeiro momento, ao lado dos golpistas. O apoio a Jango na hipotética resistência viria de Pernambuco. Miguel Arraes era ferrenho defensor das Reformas de Base – esteve, por exemplo, no Comício da Central, em 13 de março. “O estado era o mais radicalizado do Brasil, tanto que foi lá que se deu a repressão inicial  mais violenta”, diz Dulce Pandolfi.

A historiadora relata que o PTB, apesar de ter apenas dois governadores em 1964, era quem mais crescia no Legislativo. “Com um programa progressista, era apoiado por organizações da esquerda, mas não ameaçava o PSD, o maior da época”. A divisão do país era tamanha que as legendas abrigavam legalistas e golpistas. “Se hoje já é difícil dizer de que lado os partidos estão, imagina naquela época”, afirma.

Na Marinha, mais conspiração

Enquanto o Exército tramava em Juiz de Fora, na Marinha a insurreição dos praças e suboficiais não ficou sem resposta. Após a anistia aos rebelados, um grupo de 400 oficiais se reuniu no Clube Naval, no Centro do Rio, para se posicionar e tomar providências. A reunião completa 50 anos hoje e será relembrada  om um evento privado e a instalação de uma placa comemorativa. Fernando Moraes Baptista da Costa, capitão de mar e guerra reformado e presente à assembleia em 1964, conta que os militares se reuniram no salão principal do prédio e ficaram concentrados discutindo a situação política do país até a primeira semana de abril.

“A derrubada do governo era ponto pacífico: de uma forma ou de outra, aquele governo tinha que ter um  ponto final”, afirma Costa. No clube, o almirante Leônidas Telles Ribeiro, comandante dos Fuzileiros, era um dos que comandava as discussões. Foram instalados um púlpito e um telefone no salão. “Ninguém dormia, mal dava para cochilar”, conta. Enquanto debatiam e produziam o documento em que pediriam a saída de Jango, chegavam lanches do clube Piraquê. O grupo também mantinha contato permanente com os generais do Exército e empresários simpáticos ao movimento. De lá, só começaram a sair a partir do dia primeiro, quando as tropas já estavam na rua e Jango, praticamente, fora do governo.

Mineiro queria a presidência

O jeitinho mineiro fez com que o ex-governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, conquistasse seu lugar na ditadura. Capaz de mobilizar as tropas do estado para o golpe na intenção de uma posição de vantagem no regime, pensava que a atitude iria colocá-lo em vantagem diante do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que também disputava, pela  UDN, a candidatura à Presidência da República. Porém, segundo a historiadora da Universidade Federal de Minas Gerais, Heloísa Starling, quando viu que os militares não passariam o poder, ficou “quietinho em seu canto”, e se confirmou com o cargo de ministro das Relações Exteriores, no governo do general Costa e Silva.

“Existia a crença de que os militares iam devolver o poder aos civis. O que Magalhães não imaginava era que eles não o fariam. Ele reagiu muito mal, mas como um bom mineiro, ficou na dele, para ocupar outros cargos no governo. Ele nunca ficou em uma posição contrária a ditadura”, disse Heloísa, ressaltando  que o então governador foi um dos subscreveram o Ato Institucional número 5, que autorizava o presidente a intervir nos estados e municípios sem as limitações previstas na Constituição. 

Empresário de prestígio, fundador do Banco Nacional de Minas Gerais, vendido ao Unibanco nos anos 90, foi opositor do governo de João Goulart, visto como esquerda. Além de participar da reunião de 28 de março, em que ficou decidido que o movimento seria deslanchado, articulou com os generais Carlos Luís Guedes e Olímpio Mourão Filho a mobilização de tropas mineiras em caso de reação popular. 

Segundo a historiadora e também professora da UFMG, Regina Helena Alves, a ajuda do governador mineiro foi fundamental para o golpe ser bem-sucedido. “Minas era geopoliticamente muito importante para  o golpe porque tinha ligação com os estados mais populosos. Qualquer reação do Sul ou do Nordeste poderia ser cortada ali. Era um lugar chave. Apesar de não ter conseguido o que queria, a apoio de  Magalhães também foi importante para ele por conta da articulação empresarial, que era ligado a muitos interesses econômicos do regime”, explicou Helena. (Colaborou Constança Rezende)

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