Por julia.sorella

Rio - Espancada até a morte por populares na semana passada, no Guarujá, litoral paulista, acusada de prática de magia negra, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi mais uma vítima dos boatos e da irresponsabilidade de cidadãos comuns em redes sociais.

Em pleno Dia do Trabalho, quinta-feira, 1º de maio, a página do Facebook ‘Guarujá Alerta’ recebeu denúncias da existência na cidade de “uma mulher suspeita de sequestrar crianças para fazer magia negra”.

No dia seguinte, os administradores da página informaram que nenhum registro de sequestro foi feito nas delegacias da região e que tudo indicava se tratar de um boato. Mas publicaram um retrato falado da suposta sequestradora. A página ‘Guarujá Alerta’ conta com mais de 57 mil seguidores.

Clique para ver o infográfico completoArte%3A O Dia

Foi o suficiente para o boato e o retrato se espalharem pelas redes sociais na tarde ao longo do sábado, com montagens sem nexo ou critérios, utilizando, inclusive, personagens fictícios. E depoimentos que transformaram o boato em realidade, mesmo com a comunidade ‘Guarujá Alerta’ reafirmando que nada havia sido confirmado em relação a sequestros na região.

Era tarde demais. No mesmo dia, Fabiane foi confundida com a sequestradora de crianças que nunca existiu e foi amarrada, espancada, torturada e teve o corpo desovado num mangue na comunidade de Morrinhos.

“A multidão esconde alguns perigos, pois ao mesmo tempo que ela dilui responsabilidades e culpas dentro de cada um, cria a necessidade de imitação. Quando o primeiro atira um tijolo, outro já dá um pontapé, um terceiro joga uma pedra e assim por diante”, explica a psicóloga Teresa Negreiros, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ).

Fabiane foi capturada%2C amarrada e arrastada até uma vala%2C onde foi agredidaReprodução Internet

Os poucos moradores que se indignaram com a cena chamaram os bombeiros, que socorreram Fabiane, mas não a tempo de evitar sua morte, consumada menos de 48 horas depois num hospital da região. Foi enterrada no dia 6. De acordo com o jornal ‘O Estado de S. Paulo’, num cemitério que fica “entre um lixão e um depósito de contêineres”.

Ainda de acordo com a reportagem, o corpo de Fabiane foi “depositado em uma gaveta nos fundos do cemitério, em lugar cercado de entulhos e insetos. Seu nome foi escrito com pregos no cimento fresco na gaveta por coveiros”.

Este foi o fim trágico e rápido de um boato que se espalhou pelas redes sociais, algo cada vez mais comum e que precisa ser visto com mais atenção não apenas por autoridades, mas pelo cidadão que utiliza a internet. O cuidado e a responsabilidade competem a todos, segundo Teresa Negreiros.

“A internet, de uma forma geral, trouxe uma série de pontos positivos mas é, também, um convite à impunidade, à boataria, exageros, generalizações e conceitos apressados. Mais do que nunca é preciso cuidado redobrado a tudo aquilo que circula em rede social, sobretudo se o autor for um anônimo, para que casos assim não se repitam”, explica Terresa Negreiros.

Marco Civil auxiliará a apuração

Aprovado em abril após anos de discussão no Congresso, o Marco Civil da Internet entrará em vigor no dia 23 de junho e será um instrumento para inibir a propagação de boatos e difamações pela internet. A nova lei deverá facilitar às autoridades o acesso aos autores e, consequentemente, punir eventuais culpados por casos como o da semana passada, no Guarujá.

“Como o Marco Civil determina a guarda de acesso a aplicativos para a apuração de crimes, denúncias falsas e coisas do gênero, vai ser mais fácil chegar aos autores e também a quem incitar crimes como os do Guarujá. Este é mais um exemplo da importância do Marco Civil para a nossa sociedade”, explicou o deputado federal Alessandro Molon (PT-RJ), relator do projeto.

De Bíblia na mão na hora da morte

Fabiane de Jesus foi linchada no início da noite de sábado. Para os assassinos, se travava de uma sequestradora cruel. Praticava magia negra com crianças. E carregava debaixo do braço um manual de bruxaria quando foi reconhecida.

A vítima, no entanto, era religiosa. Voltava de uma igreja próxima a sua casa e carregava uma Bíblia. Era mãe de duas meninas, uma de 12 anos, outra de apenas um ano. Sofria de transtorno bipolar e fazia tratamento regular. Seus vizinhos nunca souberam de nenhum comportamento agressivo.

Foi acusada de abordar uma criança antes de ser apanhada pelos que a lincharam. Segundo os familiares contaram ao site da Revista ‘Veja’, Fabiane saiu de casa para buscar a Bíblia que havia esquecido na igreja.

Ela ficou uma hora e meia no local, depois saiu para tirar dinheiro no caixa eletrônico e passou no supermecado, onde comprou bananas. Após dar a fruta ao menino, duas pessoas a acusaram de ser a falsa sequestradora, e começaram as agressões. Graças aos boatos disseminados no Facebook.

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