De Olho na Política: O martírio de Fabiane

Com uma Bíblia na mão, ela foi barbaramente assassinada porque deu uma fruta para uma menina

Por O Dia

Rio - Ontem foi Dia das Mães, mas não houve festa na casa do porteiro Jaílson Alves das Neves, no bairro de Morrinhos, no Guarujá. Ele participou do ato em homenagem à sua mulher, Fabiane Maria de Jesus, a mãe de Yasmin e Ester, que foi barbaramente linchada por vizinhos no sábado, 4 de maio. Com uma Bíblia na mão, Fabiane foi morta porque deu uma fruta para uma menina.

Nesse gesto carinhoso, seus algozes enxergaram a maldade de uma sequestradora procurada pela polícia. A bruxa, se é que ela existe, usaria crianças em rituais de magia negra, mas muito longe do litoral paulista. Os moradores de Morrinhos, incitados por retratos falados divulgados na internet, fizeram confusão e, sem dar qualquer chance de defesa a Fabiane, mataram-na a chutes, socos, pedradas, pauladas.

Golpearam sua cabeça no chão, passaram por cima dela com uma bicicleta e a jogaram numa vala imunda. Gravemente ferida, com lesões no cérebro e no coração, a dona de casa morreu na manhã seguinte. Os justiceiros enlouquecidos mataram uma inocente.

O martírio de Fabiane Maria de Jesus é motivo de vergonha para todos nós, brasileiros. Lembra fatos ocorridos em outros países, em épocas distantes. Há quem fale da Idade Média, quando se matavam feiticeiras na fogueira, como se aquelas mulheres, com suas crendices, fossem capazes de mudar o destino de alguém. Às vezes bastava serem adversárias para serem condenadas, como aconteceu com a francesa Joana D’Arc.

Mas o principal paralelo é o caso das ‘Bruxas de Salém’, ocorrido no povoado do mesmo nome, em Massachusetts, nos Estados Unidos em outubro de 1692. Collon Mather, um pregador puritano que acreditava em feitiços, criou um clima de medo e desconfiança na comunidade, a partir da prisão de uma escrava e suas amigas. Abriu-se o processo, e o julgamento durou um ano.

Ao longo da inquisição, foram presas cerca de 150 pessoas e executadas mais de 20 na forca. Anos mais tarde, o juiz Samuel Sewall admitiu que cometeu um erro. Séculos depois, já na década de 1950, o dramaturgo Arthur Miller fez uma peça de teatro sobre o episódio de Salém para denunciar a perseguição a intelectuais de esquerda pelo senador Joseph McCarthy.

No caso de Fabiane, os moradores de Morrinhos agiram como os colonos de Salém. Com medo da suposta bruxa, atacaram brutalmente a primeira mulher que encontraram pela frente. Se a vizinha, além da semelhança física com o retrato falado, aproximou-se de uma criança e trazia fotos de outras duas (suas filhas), só podia ser ela a sequestradora. Os homens que mataram Fabiane não deram ouvidos aos que pediram que parassem e chegaram a se vangloriar.

“Matamos uma vaca, uma vadia!”, afirmou no Facebook uma das moradoras de Morrinhos. Quando souberam do erro brutal que cometeram, passaram a se desculpar. E outros, presos pela polícia, dizem que beberam ou estavam sob efeito de remédios. Estavam todos conscientes, mas cegos pela intolerância.

Fica, porém, uma questão mais profunda. Por que os moradores de Morrinhos agiram com tamanha crueldade e desrespeito à vida de Fabiane? Por que resolveram fazer justiça com as próprias mãos? Na opinião de especialistas, a resposta é simples: se as instituições não funcionam (e Morrinhos vivem à margem dos serviços públicos), volta-se à barbárie. Onde o Estado não atua e não existe, tudo é permitido.

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