Por bferreira

Rio - A Embaixada da Argentina no Brasil vai informar ao Ministério das Relações Exteriores argentino das declarações do coronel reformado Paulo Malhães à Comissão da Verdade do Rio de Janeiro. Ontem, O DIA publicou com exclusividade parte dos dois depoimentos dele este ano. O documento foi apresentado ao público ontem em audiência pública.

Wadih Damous e Nadine Borges defendem mais investigações sobre cooperação entre militares do Brasil e da Argentina durante a ditaduraCarlos Moraes / Agência O Dia

Malhães confessou que capturou no Rio e dopou ativistas argentinos e os entregou a autoridades argentinas. “Eu vou comunicar a Buenos Aires formalmente sobre conteúdo das declarações, como já comuniquei sobre o assassinato do coronel”, afirmou Juan Antonio Barreto, secretário da embaixada argentina.

Ao depor, o coronel contou, sem dar nomes, que capturou um líder do grupo Montoneros que vinha num voo de Buenos Aires com destino à Venezuela. O preso foi entregue a militares e a volta à capital argentina teve apoio de um médico, que dopou e engessou a vítima.

“Guardei os frasquinhos que o médico me deu, com as finalidades. Esses frasquinhos foram até usados pelo SNI. Um cara me pediu uma ampola e tal. Maravilhosos os frasquinhos (rindo). Eles serviam para várias coisas, fazer tu ter um AVC, por exemplo”, contou Malhães.

O relatório da Comissão mostra que ao menos três montoneros foram presos no Brasil. Horacio Campiglia e Monica Binstock voltavam do exílio para a Argentina em março de 1980. Os dois saíram do México, num voo com conexão no Rio.

Parentes acreditam que eles foram sequestrados no Galeão. Os dois nunca mais foram vistos. O capelão dos Montoneros Jorge Oscar Adur também desapareceu no Brasil em julho de 1980.

Juan Antonio Barreto explica que caberá ao Ministério de Direitos Humanos decidir sobre uma investigação. “Achei interessante que ele diz no depoimento que o Consulado Argentino participou das prisões. Isso serve para a gente investigar de que maneira a chancelaria e o ministério da época colaboraram com a ditadura. Isso é inédito. Nunca tivemos provas do envolvimento do corpo diplomático, embora isso precise ser investigado. Não sabemos quem são esses funcionários, mas o ministério tem condições de localizar os nomes”, disse.

Ontem, a Comissão Nacional da Verdade foi, com ex-presos políticos, à antiga carceragem do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa), no Galeão.

Preso irmão do caseiro de Malhães

A Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense, em Belford Roxo, prendeu na madrugada de ontem Anderson Pires, irmão de Rogério Pires, ex-caseiro do coronel reformado Paulo Malhães. Eles são acusados de participar do assalto à casa do coronel em 24 de abril, com outro irmão, Rodrigo Pires.

Anderson foi preso em casa, em Santa Cruz, na Zona Oeste. Ele estava armado e tentou fugir. O terceiro acusado continua foragido.

Na casa de Anderson, policiais encontraram sete armas roubadas da residência do coronel Malhães. Ele foi encontrado morto com sinais de asfixia, num dos cômodos de seu sítio, em Nova Iguaçu. A Polícia Civil divulgou, no entanto, que o laudo cadavérico informa que a causa da morte foi um infarto.

5 minutos com Wadih Damous e Nadine Borges

Ao apresentar o depoimento do coronel Malhães, membros da Comissão da Verdade do Rio admitiram mais investigação.

1.Qual a avaliação sobre a cooperação internacional?

Damous — Isso pode estar no contexto da Operação Condor. É possível que a Comissão Nacional abra investigação. Nós vamos abrir porque o sequestro foi no Rio.

2. Vocês pedirão ajuda à Argentina ?

Nadine — Estamos avaliando. Em 2013, fizemos audiência pública com o filho do argentino Norberto Habegger, que pode ter desaparecido aqui. São fatos depois de 1979. Isso segue na linha do que a Justiça tem visto, nos crimes pós Lei da Anistia. E o Malhães admitiu que ajudou a Argentina.

3. As investigações serão entregues ao Ministério Público Federal?

Damous — Sim. Parte do depoimento, sobre Rubens Paiva, a gente já entregou e acho que serviu de subsídio para a denúncia aceita pela Justiça.

4. Qual vai ser o próximo passo ?

Nadine — Checar todo o depoimento. A gente sumarizou as falas.

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