De Olho na Política: Chifre em cabeça de cavalo

Se FHC ou Lula entrassem num estádio com a inflação em alta e o crescimento em baixa, certamente também seriam vaiados pela torcida

Por O Dia

Rio - As hostilidades à presidenta Dilma Rousseff durante o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo geraram forte polêmica nas mídias sociais e também nos meios de comunicação tradicionais. As vaias, de maneira geral, foram consideradas normais e aceitáveis. Outros presidentes passaram por esse dissabor, inclusive o carismático Lula, na cerimônia de abertura dos Jogos Panamericanos, em 2007. O que mais chocou, desta vez, foi o palavrão. Considerou-se desrespeitoso e agressivo o coro “Ei, Dilma, vai tomar no c...” . Foi, de fato, uma grosseria, uma molecagem. Mas o Palácio do Planalto sabia que a presença da presidenta iria despertar reações. Prova disso é que Dilma pediu para não falar na abertura oficial do torneio, quebrando longa tradição. O staff da campanha de reeleição sabe que o mar não anda para peixe, principalmente em São Paulo.

No calor da discussão, houve quem dissesse que, mais do que Dilma, o xingamento atingiu um símbolo do país, a chefe da nação. Quem olha tudo pelo ângulo feminista atribuiu a agressão ao fato de o alvo dos palavrões ser uma mulher. “Temos uma elite despreparada para ver uma presidenta mulher. Humilharam a mulher brasileira na pessoa de Dilma”, disse a socióloga Ana Thurler, certa de que o coro não seria entoado contra Fernando Henrique e Lula. Os comentaristas esportivos José Trajano e Juca Kfouri, da ESPN Brasil, também saíram em defesa de Dilma, afirmando que a manifestação foi além do que se vê nos campos de futebol e partiu de uma minoria elitista. Seria coisa de mauricinhos, com condições de pagar os caríssimos ingressos padrão Fifa.

Trajano e Juca foram apedrejados na internet. Chegaram a ser acusados de racismo contra os brancos. Pura bobagem. Na verdade, fez-se muito barulho por um acontecimento de importância limitada. Houve desrespeito, sim, mas num nível que não surpreende nos estádios de futebol, onde as mães de juízes e de jogadores adversários são xingadas aos sábados e domingos. Na decisão da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha no ano passado, grupos de torcedores do Corinthians subiam a rampa do Maracanã cantando o mesmo coro da última quinta-feira, só que dirigido aos palmeirenses: “Ei, porco, vai tomar no c...”. O brado de mau gosto, portanto, não é novidade e faz parte do arsenal das torcidas. Foi adaptado para ofender Dilma.

O alvo dos palavrões era a candidata à reeleição, e não a presidenta mulher, a chefe da Nação. Não se veja fantasma. Se FHC ou Lula entrassem num estádio com a inflação em alta e o crescimento em baixa, certamente seriam vaiados pelas arquibancadas. Se Dilma pisasse hoje no Maracanã lotado em dia de jogo do Flamengo — com ingressos mais baratos — dificilmente escaparia de hostilidades. Em Itaquera, num jogo do Timão, mesmo com os portões abertos, não seria diferente. A reação da torcida não é elitista, nem machista. É política. O índice de rejeição a Dilma Rousseff em São Paulo é o maior do país.

A presidenta, porém, reage na medida certa ao afirmar que não vai se intimidar e nem se atemorizar com xingamentos. Mas está errado o ex-presidente Lula quando diz que a vitória nas urnas “será a nossa vingança”. Ao falar de vingança, Lula se põe no mesmo nível dos torcedores que ofenderam a presidenta da República. Estadistas não se vingam de minorias exaltadas. Governam para todos.

E-mail: octavio.costa@odia.com.br

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