Morte de Eduardo Campos mexe na disputa eleitoral no Rio

Campanha de petista ao Palácio Guanabara é a que mais sofre com a perda do aliado socialista

Por thiago.antunes

Rio - Lindberg Farias, do PT, disse que perdeu, além do amigo de mais de 20 anos, um de seus principais avalistas e responsáveis pela coligação que viabilizou sua campanha ao governo do Estado do Rio. Nas palavras do próprio candidato, foi Campos quem “estendeu a mão” para que politicamente tivesse forças para justificar sua candidatura junto ao próprio partido. Sem o PSB, o apoio de Lindberg restringiria-se ao sempre próximo PC do B e ao PV — ambos pequenos e com pouco tempo de televisão .

Com a morte do socialista ontem, Lindberg terá agora, provavelmente, nos materiais de campanha produzidos pelo PSB não mais o aliado e amigo, mas uma crítica ferrenha de seu partido e opositora de primeira hora da aliança que sagrou seu nome na disputa ao Palácio Guanabara: Marina Silva.

O deputado Romário (PSB) só aceitou a coligação com o PT por causa da intervenção de Eduardo CamposAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Como presidente nacional do PSB, Campos precisou dobrar a resistência dela e de outro correligionário, o então futuro candidato ao Senado, Romário, que, segundo ele mesmo disse à reportagem dias atrás, nunca teve nada contra Lindberg, mas tudo contra o PT nacional. O ‘Baixinho’ engoliu o orgulho, e, em entrevista ao DIA, admitiu até o apoio ao PT num eventual segundo turno entre Dilma e Aécio.

Era a Eduardo Campos, que recorriam os petistas quando consideravam que Romário pisava na bola com suas declarações contra a presidenta Dilma Rousseff. Sem ele, dificilmente Roberto Amaral, agora à frente do PSB, terá forças para segurar o ‘Baixinho’. E Marina, confidencia um socialista, não teria a menor vontade política de interferir nos destemperos verbais de Romário sobre o PT.

Não foi sem dor e ranger de dentes que se chegou à coligação PT, PV, PSB e PC do B. Se dependesse de Alexandre Cardoso,prefeito de Duque de Caxias, antigo presidente do PSB no Rio, o partido estaria com o governador Luiz Fernando Pezão. Cardoso foi derrotado também na disputado com Romário. Perdeu duas vezes: o poder dentro do partido e a própria legenda. Hoje, ele estuda se filiar ao PMDB.

GALERIA: Morre Eduardo Campos

A campanha de Lindberg chegou a admitir a possibilidade de fazer caminhadas com Campos em agenda comum com Romário, mesmo tendo a oposição do PT nacional. Isso não deve ocorrer com Marina. O voto do eleitorado evangélico é outra possível mudança para o Rio. Garotinho e Crivella, que disputam esses eleitores, estão aliados à presidenta Dilma Rousseff. Evangélica, Marina Silva também atrai simpatia de parte desta fatia de votos que encontra grande público no estado.

Em choque, candidatos cancelam agendas

A tragédia envolvendo Eduardo Campos causou comoção nacional e atingiu em cheio o cenário político fluminense. Assim como a presidenta Dilma Rousseff, o governador Luiz Fernando Pezão e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, declararam luto oficial de três dias pela morte de Campos.

O governador Pezão diz que ‘país perdeu um homem honrado’Levy Ribeiro / Agência O Dia

Todas as agendas dos candidatos ao governo do estado do Rio também foram canceladas ontem e hoje. O debate na Band Rio entre os postulantes ao Palácio Guanabara, que aconteceria hoje à noite, foi remarcado para a próxima terça-feira. Para o governador, o país perdeu prematuramente ‘um homem honrado’. Pezão afirmou que Campos estava empenhado na construção de um país igualitário, justo e democrático e fará muita falta à democracia brasileira.

O prefeito Eduardo Paes disse estar chocado. “Ele fazia parte de uma geração de políticos comprometidos com a luta por um país melhor. Que os seus sonhos se confirmem. Solidarizo-me profundamente com a sua família, amigos e com o povo pernambucano”, disse Paes. Anthony Garotinho lamentou a morte prematura de um ‘político de raízes históricas com o povo brasileiro’.

Garotinho%2C sobre Campos%3A ‘Político de raízes históricas com o povo’Paulo Alvadia / Agência O Dia

Divulgação indenifida de pesquisa

A tragédia de ontem também deixou uma incógnita sobre a divulgação das pesquisas eleitorais programadas para os próximos dias. O Datafolha passou a última semana em campo pesquisando as intenções de voto para à Presidência da República. Procurado ontem, o instituto garantiu que não há mudanças no cenário de divulgação até o momento. Uma mudança ainda dependerá da direção.

Já o Ibope disse que irá aguardar a definição do PSB sobre um novo candidato em sua chapa para realizar novas sondagens na corrida presidencial. As pesquisas dos cenários estaduais realizadas até agora terão o calendário de divulgação mantido normalmente. Por meio de nota, o Ibope disse que Eduardo Campos vinha surgindo “como uma das novas lideranças do cenário político nacional e sua morte prematura é uma grande perda para o país”.

'Eleição fica em polarização pobre', 5 minutos com Lindberg

O que perdeu a política brasileira com a morte de Eduardo Campos?

O Brasil perdeu muito. Conheci Eduardo há 20 anos, ainda no ‘Fora Collor’, e era um sujeito incrível. Estive na casa dele quando nasceu o Miguel, o mais novo, sete meses atrás, que também tinha Síndrome de Down. Eu viajei com minha filha, a Maria Antônia (também com a síndrome). Ele era um paizão. Os amigos estão sofrendo muito. Estou indo amanhã (hoje) com minha esposa para Recife, para dar um abraço e tentar confortar a família dele. Queremos transmitir força para eles. Tenho certeza que Renata (Campos) vai conseguir segurar essa barra, que vai criar bem seus cinco filhos, que ela terá garra. Sinceramente, estou arrasado.

'O Brasil perdeu muito'Carlo Wrede / Agência O Dia

Como fica agora a campanha presidencial?

O Eduardo traria a sua inteligência e contribuiria muito para o debate político neste país. Agora, ficará numa polarização pobre. O Brasil vai perder demais. Lamento porque ele desejava demais ser candidato e, da minha geração, era o melhor. Ele tinha coisas para falar e, na hora em que começaria, por causa do horário eleitoral, que começa na próxima semana, acontece um desastre como esse. O Brasil ainda não tem a dimensão do que perdeu. Ele era um cara que falava sobretudo em renovação política e que tinha incontáveis ideias novas. Sou extremamente grato porque ele me estendeu a mão quando eu mais precisava, e o fez porque acreditava que era possível construir um caminho novo aqui no estado do Rio.

Mas a morte dele ajuda a quem na corrida presidencial?

Não consigo nem pensar nisso hoje. Gostava tanto do Eduardo, que, embora estivesse num partido diferente do meu, tínhamos uma relação de amizade, que eu nem consigo pensar nisso hoje. Foi um choque (emociona-se). Eu conheço a família dele (emociona-se novamente). Sinceramente não dá para avaliar. A sensação é de um vazio (pausa). O Brasil todo perde. Ele tinha compromisso com o povo mais pobre, com o povo trabalhador, com a juventude. Ele mostrava isso quando falava em escola de horário integral, em passe livre.

Para sua candidatura ele foi importante também?

Sim, ele me estendeu a mão. Ele entendeu que a política do Rio estava deteriorada e que estava na hora de construir um novo caminho para o Rio. Ele entendeu isso bem e foi fundamental.

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia