No Rio, os momentos finais de Eduardo Campos

Na véspera do acidente, encontro com Dom Orani, academia e jantar animado em Copa

Por thiago.antunes

Rio - O Rio de Janeiro foi o cenário dos últimos momentos da vida política e social de Eduardo Campos. Foi em frente do cartão postal da cidade, a Praia de Copacabana, que ele fez a sua última refeição, esteve em família, e projetou o futuro, ainda como candidato pelo PSB com os seus assessores, sobre o deque do Hotel Sofitel.

Na terça-feira, com a sua mulher, Renata Campos, e o filho caçula Miguel, jantou peixe robalo grelhado, acompanhado de uma garrafa de vinho. Com os dois, tomou café da manhã ontem, antes de embarcar para Santos. Nas duas ocasiões, tiveram a companhia de parceiros políticos e assessores de campanha. A sua vice, Marina Silva, esteve ao seu lado desde os primeiros momentos no Rio de Janeiro.

Na terça-feira%2C Marina Silva e Eduardo Campos tiveram encontro com o cardeal-arcebispo Dom OraniDivulgação

Com ela, chegou pela manhã para se hospedar no hotel, localizado no fim da praia, no Posto 6, a poucos metros do Forte de Copacabana. Para estar em forma para mais um compromisso da sua campanha política — duas entrevistas para a televisão —, exercitou-se ainda no hotel. Ele frequentou a academia por quase uma hora, contaram funcionários. Nas horas seguintes, ele passou se preparando para a sabatina a que se submeteria durante a noite no ‘Jornal Nacional’, da Rede Globo.

Antes de ir para a emissora, Campos compareceu a uma reunião de portas fechadas com o cardeal-arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, na sede da Arquidiocese do Rio, ainda durante a tarde. O candidato parecia esperançoso, confidenciou Dom Orani. “Conversamos ontem sobre planos e sonhos que ele tinha para o país”, disse. “Lamento a sua morte neste tempo e nesta circunstância e saúdo com carinho os familiares e amigos, rezando para que a confiança na vida eterna console a todos”, afirmou o religioso.

GALERIA: Morre Eduardo Campos

Após deixar a Arquidiocese, o candidato se dirigiu para os estúdios da Rede Globo, no Jardim Botânico, para participar de entrevista. “Nos vemos de novo no segundo turno”, foi a frase que disse para os apresentadores ao se despedir, segundo um funcionário da emissora. Após o término, ele ainda concedeu entrevista ao ‘Jornal das Dez’, da GloboNews.

Ele chegou por volta de 22h30 ao restaurante Atlantis, do hotel onde estava hospedado. Para acomodar todos os familiares, políticos e assessores, os garçons juntaram duas mesas no deque de madeira, de frente para o mar. Em clima descontraído, permaneceram ali até depois da meia-noite. Naquele horário, já era possível sentir no vento que uma frente fria viria se abater sobre o litoral.

Eram sete pessoas reunidas, incluindo sua mulher, Renata, e o caçula de seus cinco filhos, Miguel, que, durante a maior parte do tempo, permaneceu dormindo no carrinho de bebê. Após o jantar, despediram-se todos, para preparar-se para o dia seguinte que, por razões que não se poderia prever, seria o último de um político considerado promissor.

'Eu quero representar a sua indignação, o seu sonho'

“Não vamos desistir do Brasil”, disse Eduardo Campos, ao encerrar sua última entrevista, concedida ao ‘Jornal Nacional’ na noite de terça-feira, horas antes de sua morte. “Eu quero representar a sua indignação, o seu sonho. É aqui onde nós vamos criar nossos filhos, e uma sociedade mais justa”.

Durante 15 minutos, o candidato foi sabatinado pelos jornalistas Willian Bonner e Patrícia Poeta, respondendo sobre temas como as supostas desavenças com Marina Silva, sua candidata à vice-Presidência, e o apoio à indicação de sua mãe, a ex-deputada Ana Arraes, ao cargo de ministra do Tribunal de Contas da União (TCU).

Eduardo Campos na bancada do jornal%2C com Bonner e PatríciaJoão Cotta / TV Globo

“Na hora em que ela (Ana) saiu candidata, com apoio do meu partido, se fosse outra pessoa, eu teria apoiado. Eu nem votei, simplesmente torci”, disse. A aliança eleitoral com Marina também foi assunto, pelo fato de o PSB, partido do entrevistado, ter aprovado o Código Florestal combatido por ela. “Marina não tem nada contra o agronegócio, a indústria e o desenvolvimento econômico”, disse, afirmando que defendeu a posição da minoria do PSB que votou contra a proposta, em sintonia com sua aliada.

O candidato defendeu seus projetos de escola em tempo integral e passe livre aos estudantes, e disse: “A pior coisa na vida de uma pessoa, família ou governo é ficar escondendo os problemas e não ter coragem, humildade, de assumir e resolver”.

Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia