Por thiago.antunes

Encantado (Rio Grande do Sul) - Em Encantado, interior do Rio Grande do Sul, há um contraste de realidades. Colonizada por imigrantes italianos há 132 anos, a cidade vive um novo ciclo migratório desde outubro de 2012, quando 58 haitianos foram contratados para trabalhar. De lá para cá, a população caribenha se expandiu.

Hoje, cerca de 500 estrangeiros atuam no setor, representando 30% dos funcionários. E 2% da população local, com 20 mil habitantes. Apesar do trabalho com carteira assinada, reclamam da baixa remuneração — segundo eles, inferior em comparação aos funcionários brasileiros — e do preconceito racial. 

Caribenhos se queixam de baixos salários e discriminação racial em cidade colonizada por italianosJoão Laet / Agência O Dia

Quarta-feira, dia 27 de agosto, meio-dia. Numa pracinha, os haitianos conversam em pequenos grupos. Eles ali, os brasileiros lá, em uma nova espécie de ‘apartheid’ em uma pacata cidade, onde os brasileiros são chamados de ‘italianos’ em decorrência das origens da população. Enquanto os haitianos conversam com a reportagem, brasileiros que passam próximo à empresa diminuem o passo e viram o pescoço para ver a cena inusitada.

Os primeiros estrangeiros estavam em um acampamento para refugiados em Rio Branco, capital do Acre, quando foram trazidos por um ônibus da própria empresa, percorrendo 3,9 mil quilômetros em cinco dias de estrada. O sofrimento era menor do que a esperança de pessoas que atravessaram o país em busca de uma vida melhor. Mais de um ano depois, o sentimento é de frustração.

A dominicana Sonia Margarita Peña se alimentou de folhas da vegetação a caminho do BrasilJoão Laet / Agência O Dia

Marjorie Saint-Claire Augustin, 29 anos, foi afastada do emprego devido à gravidez de risco e toma banho de balde, porque o fornecimento de água foi cortado na casa de madeira onde mora com outras 11 pessoas. Yuayn Medina, de 37 anos, está há mais de um ano sem ver a mulher e os quatro filhos, que não conseguem chegar ao país.

Um caso emblemático é de Roldy Julien, 25. Estudante de Medicina no Haiti, o destino dele foi trabalhar no abate de animais. Conta que, em dezembro do ano passado, foi obrigado a manusear máquina trituradora, apesar de se queixar de dores. A luva que usava ficou presa e ele teve três dedos da mão direita decepados. Depois de passar por 16 cirurgias, Julien recorreu à Justiça para processar a empresa. Procurada, a firma não se manifestou.

O haitiano Julien Roldy teve a mão triturada em fábrica e perdeu três dedosJoão Laet / Agência O Dia

Sem roupas e móveis suficientes, eles encontram uma voz acolhedora na igreja da cidade. O padre haitiano Pierre Dieucel é o elo entre os dois povos de Encantado. Ele pertence à congregação scalabriniana, fundada por italianos no fim do século 19 para ajudá-los na migração. Hoje, a congregação atua em 32 países. E colocou nas mãos do padre Pierre, há seis anos no país, a missão de ajudar os seus conterrâneos caribenhos na cidade colonizada pelos europeus.

Pierre, que integrava a Igreja da Paz, em São Paulo, está há sete meses em Encantado para auxiliar os estrangeiros com doações e a aprender o português. Ele se tornou os ‘ouvidos’ dos haitianos, que se mostram desiludidos com o trabalho. “A vinda deles teve o objetivo de fazer com que a empresa cresça, por causa da escassez de mão de obra. Eles se sentem injustiçados e explorados, mas se sentem obrigados a ficar. Querem um salário digno.”

Marjorie Saint-Claire Augustin está grávida de cinco mesesJoão Laet / Agência O Dia

Mas detectou problemas bem maiores do que apenas a dificuldade para o sustento com um salário abaixo do necessário. “No início, foi muito difícil. Não só pelo fato de serem imigrantes. Mas pela cor da pele. É uma cidade de descendente de italianos e há a questão do racismo. Agora, o povo está aceitando mais”, acredita o padre. Uma crença que compartilha com os seus conterrâneos, na esperança de um tempo em que haitianos e descendentes de italianos possam fazer parte de uma sociedade sem preconceitos na cidade de Encantado.

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