Por bferreira
Publicado 04/11/2014 00:54

Rio - Embora negros e pardos representassem 44% dos candidatos à Câmara dos Deputados e às assembleias legislativas, eles receberam 17% do total doado por grandes empresas aos partidos políticos, nas eleições deste ano.

Com as mulheres, a situação não foi melhor. Se pela primeira vez os partidos chegaram perto de cumprir a cota legal de 30% de candidaturas femininas (29%, neste pleito), as legendas não investiram nelas na mesma proporção — apenas 13% de todo o dinheiro recebido.

Os dados públicos foram cruzados pela ONG Transparência Brasil, que considerou o valor doado pelas 15 empresas que mais contribuíram com as campanhas. De acordo com o estudo, candidatos brancos receberam proporcionalmente mais dinheiro que os não brancos.

Já os 55% de postulantes brancos ao Legislativo — na conta não entra o Senado — receberam 82% dos recursos. Já pardos, que são 35%, receberam 14% do dinheiro doado; negros, sendo 9% do total de candidatos, ficaram com 3% das doações.

Natália Paiva, coordenadora da análise, acredita que a baixa arrecadação de candidatos negros e mulheres reforça a “pouca efetividade das candidaturas e, por consequência, a continuidade da sub-representação dos grupos no Legislativo”.

“Já esperávamos, mas foi com tristeza que percebemos os dados. Os partidos adotam o discurso da dificuldade de preencher as cotas de mulheres, mas, efetivamente, não trabalham para que sejam eleitas”, lamenta.

Coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, o sociólogo Luiz Augusto Campos, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj, concorda que só política de cotas para mulheres ou o aumento de negros candidatos não resolverão a sub-representação no Legislativo.

Para ele, o Estado tem de tomar atitude e mudar a forma como se gere os recursos de campanha. “Não adianta criar cota para mulher ou criar alguma política para negro e não dar recursos para que se elejam. Isso se refere também ao horário eleitoral, que, segundo mostram nossos estudos, não dão visibilidade aos grupos.”

O professor aponta ainda para a necessidade da representação dos vários grupos sociais na construção da democracia. Ele cita o exemplo de pessoas com deficiência. “Regular calçadas numa cidade era assunto menor até que pessoas com deficiência fossem eleitas e apontassem a acessibilidade como algo fundamental”, lembra.

Negro, o deputado estadual Gilberto Palmares (PT) defende a reforma política para “democratizar” a Câmara Federal e as Assembleias Legislativas. “Grandes empresas vão direcionar seu financiamento a parlamentares que defendam seus interesses. Será que classes populares, negros e mulheres estão neste grupo?”.

Outro aspecto para a baixa arrecadação, segundo Campos, é que a maior parte dos negros está restrita a partidos pequenos. A sigla que mais arrecadou até agora (29% do total), o PT tem 42% de candidatos negros. O PSDB, 33%.

Acerto de contas hoje

O prazo para a última prestação de contas de quem disputou o primeiro turno termina hoje, às 19h. E o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promete liberar os dados ao público, no site, tão logo os receber.
Com dificuldades, o senador Lindbergh Farias teve de recorrer ao PT, seu partido, para liquidar dívidas de campanha ao governo do Rio. Segundo o jornal ‘Folha de S.Paulo’, o rombo chegaria a R$ 6 milhões.

À publicação, ele disse que doadores fogem de quem perde. Procurado pelo DIA, a assessoria de imprensa do senador afirmou que ele não falaria.

Já as contas do adversário Anthony Garotinho (PR), que também entregará a prestação final hoje, estão em situação melhor, segundo o PR. O partido não revela valores.

Mas, de acordo com a deputada federal eleita Clarissa Garotinho (PR), a campanha de reeleição da presidenta Dilma Roussef (PT) ajudou a campanha do pai. “Eles cumpriram o que prometeram e já acertaram”, disse Clarissa.

Luiz Fernando Pezão (PMDB) e Marcelo Crivella (PRB) têm até o dia 25 para prestar contas com o TSE.

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