Ditadura monitorou exilados e até aliados fora do país

Ministro Delfim Netto foi alvo de vigilância em Paris

Por O Dia

Brasília - Capítulos do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) mostram que o Brasil montou uma rede mundial de espionagem e repressão política durante a ditadura militar. Para isso, foram usadas embaixadas, diplomacias e consulados brasileiros em diversos países entre 1964 e 1985. Articuladas às polícias e aos militares de diversos países, o governo brasileiro vigiou, sequestrou, desapareceu e torturou sem respeitar fronteiras: nem aliados do regime escaparam. E, além disso, o país formou uma extensa malha repressiva com outras ditaduras militares sul-americanas na chamada Operação Condor.

Diversos exilados fossem espionados, como João Goulart, presidente deposto após o golpe de 1964Agência O Dia

A articulação internacional do Brasil durante o regime fez com que diversos exilados fossem espionados, como João Goulart, presidente deposto após o golpe de 1964: seus passos foram acompanhados pelo mundo, e não só no Uruguai e na Argentina, onde o ex-presidente viveu até morrer em dezembro de 1976. Um exemplo é o telegrama enviado pelo Ministério das Relações Exteriores à Embaixada em Paris, com o hotel e o número do quarto em que Jango se hospedou na capital francesa. No texto, há informações até sobre os horários em que o ex-presidente sairia dos seus aposentos, com a recomendação de “manter o Ministério informado de todo e qualquer deslocamento do senhor João Goulart”.

Nem mesmo nomes fortes do regime escaparam da atenta vigilância da repressão. Caso do ministro da Fazenda Delfim Netto, que ocupou o cargo durante o auge da repressão, de 1969 a 1974, ano em que foi nomeado embaixador do Brasil na França. Em depoimento à CNV em fevereiro deste ano, o embaixador Guy Mendes Pinheiro de Vasconcellos, então chefe da base em Paris, relatou que foi montada uma rede de espionagem para vigiar Delfim Netto. Com este fim, foi criada na capital francesa uma base do clandestino Centro de Informações do Exterior (Ciex), vinculado ao Ministério das Relações Exteriores. Países como Paraguai, Argentina, Uruguai, Rússia, Alemanha Oriental e República Tcheca também tiveram sedes do Ciex.

A vigilância sobre Delfim Netto era motivada pela insatisfação de militares ligados ao general Geisel com as ambições políticas do ex-ministro. Segundo o embaixador Vasconcellos, sua responsabilidade era passar informações cifradas de Paris a Brasília. "Minha atribuição específica, dita de boca, era só para vigiar o Delfim Netto quanto a negociatas. Esse era o meu objetivo", declarou em depoimento à CNV.

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