Rio - Definitivamente, 2014 foi o ano em que a direita saiu do armário. Ou, como querem alguns, foi o marco do surgimento de uma “nova direita”. Em sua forma mais estridente, essa turma apresentou-se em passeatas raivosas pelas ruas de São Paulo, suplicando por golpe militar, maldizendo políticas sociais e reinventando o anticomunismo. No âmbito partidário, direitistas ganharam espaço no Congresso e em outras casas legislativas. Alguns alcançaram status de campeões das urnas, como o deputado Jair Bolsonaro, que deixou de ser apenas um personagem folclórico para conquistar quase 470 mil votos. Durante muito tempo, reclamou-se que ninguém no Brasil tinha coragem de se assumir como integrante da direita. Pois bem, aí estão eles. A questão agora é oposta: afinal, onde está a esquerda brasileira?
Quem procurar no governo não vai achar. A composição do ministério do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff comprova que ela continuará a caminhar pelo centro, com mais quedas para a direita do que se viu em seus primeiros quatro anos de gestão. Não sem o espanto dos que ainda esperam por um governo de esquerda (e não apenas à esquerda).
As concessões de Dilma, no entanto, são compreensíveis, diante do avanço da oposição. Se conseguir resultados tão importantes quanto os do primeiro mandato, como a diminuição da desigualdade, a presidenta terá feito bom uso das alianças. O maior problema não é o governo, mas o partido de Dilma. Mais que a escolha de parceiros políticos surpreendentes e as incoerências entre o que pregava e o que hoje pratica, os sucessivos escândalos de corrupção transformaram o PT num fantasma. Com a morte daquele partido idealizado, tido como reserva moral, a militância está órfã e a esquerda brasileira perdeu a principal referência.
Nesse vácuo, a direita, fortalecida pelas últimas eleições, avança sem ter qualquer obstáculo. De onde virá a força política que servirá de contraponto à onda conservadora? A vinculação do PC do B ao governo o expôs a contradições semelhantes às do PT. O PCB também não empolga e é tido como ultrapassado até nos meios universitários.
Legendas como PSTU e PCO repetem clichês ideológicos, sem mostrar qualquer alternativa prática fora de uma revolução. O PSB segue linha de centro-esquerda parecida com a do PT, e a Rede de Marina Silva ninguém sabe o que será. Atualmente, o Psol tem o maior potencial para se candidatar ao posto de farol da esquerda. Tem muitas semelhanças com o antigo PT: um discurso de defesa da ética na política, rejeição de alianças à direita, bandeiras progressistas, bons quadros e um grupo crescente de militantes. Faltam-lhe, no entanto, muitos atributos que deram relevância à legenda petista.
O principal é a penetração em estados, bairros e regiões mais remotas, onde possa dialogar com o povo que diz defender. Até aqui, o Psol tem penetração principalmente entre professores e estudantes universitários, sem a representatividade junto às classes populares que tinham os petistas. É um partido Zona Sul.
Se 2014 foi o ano do ressurgimento da direita, que 2015 marque o início do resgate da esquerda. Esse equilíbrio é saudável para a política, é saudável para o país.