De olho na política: Anos depois, a lição de Brizola

Proibiu a polícia de fazer nos morros operações que causavam mais sofrimento aos moradores.

Por O Dia

Rio - Justamente nessa época em que a reputação dos políticos está mais baixa que o pré-sal, jovens da Baixada Fluminense resgatam a memória de um personagem fundamental da política brasileira. Em Duque de Caxias, como O DIA mostrou ontem, rapazes e moças com idades em torno dos 20 anos retomaram o ideário de Leonel Brizola, especialmente a defesa da educação pública de qualidade. Conferem status pop ao seu nome, transformam em grife nas camisetas. Muitos vão adorar; muitos vão detestar. Sempre foi assim. Ninguém ficava ou fica indiferente a Brizola, que conquistou legião de seguidores, mas também de adversários. Entender o que faz dele inspiração nesse tempo de políticos desacreditados pode ser bom aprendizado. Algo útil para quem, mais do que cumprir o mandato, pretende reservar lugar na história.

Desde cedo, Leonel Brizola demonstrou algo que anda em falta nos tempos de hoje: coragem, uma de suas características principais. Foi com essa ousadia que criou 6.302 novas escolas quando foi governador do Rio Grande do Sul. Ainda no cargo, resistiu aos que se opunham à passagem da presidência a João Goulart, quando Jânio Quadros renunciou.

Com Jango no poder, foi um dos principais incentivadores das Reformas de Base. Às vésperas do golpe militar, Brizola resistiu o quanto pôde. Até seguir para o exílio.
Em 1982, foi eleito governador do Rio de Janeiro contra tudo e contra todos. Não tinha recursos milionários, foi bombardeado pela mídia e, mesmo assim, chegou lá. Falava para os mais pobres e era com eles que mostrava preocupação.

Quando chegou ao governo, manteve a coragem intacta: encampou empresas de ônibus, pôs em prática o projeto de construir 500 Cieps e, pecado dos pecados, criticou duramente veículos de imprensa que o atacavam.

Nesse primeiro governo, Brizola proibiu a polícia de fazer nos morros operações que causavam mais sofrimento aos moradores que trabalhavam honestamente que aos traficantes. A certa altura, determinou: ações policiais nas favelas, só com o conhecimento do governador. Nascia ali a lenda segundo a qual Brizola proibiu que a polícia subisse o morro. Não é verdade. O governador proibiu os desmandos da polícia nas favelas. Apenas isso.

Se a coragem era a marca positiva, no segundo mandato como governador do Rio, Brizola mostrou a marca negativa. Era um estadista, não exatamente um administrador. Cuidou muito mal de vários assuntos do estado, as contas ficaram desequilibradas e nessa época deu margem a uma chuva de críticas por parte de seus opositores.

Como se vê, a figura de Brizola, que morreu há mais de 10 anos, permanece destacada. Goste-se ou não dele, é preciso reconhecer que não existe quem, atualmente, seja tão destemido. Alguém com a coragem de dizer cara a cara, em rede nacional de TV, tudo que pensa sobre seus adversários. Nunca abriu mão de seu estilo.

Ao seu modo particular, que nenhum marqueteiro domaria, conseguiu deixar para as gerações seguintes a lição que repetiu e praticou à exaustão: educação pública de qualidade é a saída para o Brasil. Seus congêneres políticos podem não ter aprendido, mas os jovens de Duque de Caxias, sim.



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