Por felipe.martins

Rio - Às 11h30 de 15 de janeiro de 1985, a festa começou. Os 60 mil cariocas que se acotovelavam em frente a um pequeno aparelho de TV, na Cinelândia, vibraram quando o deputado João Cunha, do PMDB de São Paulo, votou em Tancredo Neves para Presidência da República. Àquela hora, o mineiro, que não tomou posse, tornava-se símbolo do fim da ditadura militar, e era o primeiro civil eleito para o cargo desde 1964. Do Colégio Eleitoral, em Brasília, saíram os ventos que passearam pelo Centro do Rio e por todo o país, soprando a esperança da liberdade. Jovem, repleta de contradições e cheia de desafios para enfrentar, assim iniciou-se a Nova República. Hoje, no aniversário de 30 anos daquele dia histórico, o país vive seu período de maior normalidade democrática: já derrubou um presidente, colocou um sociólogo, um operário e uma mulher guerrilheira no poder.

Multidão na Cinelândia acompanhou votação que elegeu Tancredo Neves presidente da RepúblicaAgência O Dia

Em seu primeiro pronunciamento como presidente, Tancredo resumiu o momento no Congresso. “A nação inteira comunga deste ato de esperança. Reencontramos, depois de ilusões perdidas, o velho caminho democrático. Não há pátria sem democracia”. A frustração pela não realização de eleições diretas se transformou em festa quando o país foi às ruas celebrar os 480 votos do mineiro, contra os 180 de Paulo Maluf, candidato dos militares, na última vez em que o Congresso escolheu o presidente. Pelo telefone, Tancredo e João Figueiredo conversaram. “Espero que o senhor consiga dar ao povo brasileiro tudo aquilo o que deseja e merece”, declarou o último ditador.

Não conseguiu. Um dia antes de sua posse, em março, Tancredo foi internado às pressas em Brasília. Quando saiu, no dia de Tiradentes, em 21 de abril, o povo voltou às ruas, desta vez para chorar a morte do símbolo da esperança de um novo Brasil. Assumiu, então, o vice José Sarney, que havia sido presidente do PDS, partido de sustentação aos militares. “Tancredo me dizia que eu tinha que ser o vice, pois ‘eu tinha o mapa da mina’. E Aureliano Chaves (vice-presidente da República) falava que sem mim não haveria Aliança Democrática. Queria que Marco Maciel aceitasse. Mas, como diz (Fernando) Pessoa, ‘cumpri contra o destino o meu dever”, contou o ex-presidente da República.

O DIA conversou com dois parlamentares fluminenses que participaram da eleição de Tancredo. Ambos eram do PDT, mas têm memórias históricas diferentes. Um, o então senador Saturnino Braga, 83, acreditava que a união da oposição em torno de Tancredo era necessária para superar o regime militar. Já o deputado federal Agnaldo Timóteo, 78, via em Paulo Maluf a segurança contra qualquer mudança radical no cenário político do país.

Um dos pontos que os ex-pedetistas divergem é acerca do estado de saúde de Tancredo naquele janeiro de 1985. Agnaldo lembra que encontrou apenas uma vez com Tancredo a convite, segundo ele, do cartunista Ziraldo . “Fui ao encontro do Tancredo a um mês da eleição, e ele já estava muito debilitado. Quase caiu, num carpete. Depois, o Maluf soube que o PDT ia votar no Tancredo, e me liberou para votar nele. ‘Ele só disputa agora porque está muito doente, eu poderei disputar mais cinco’, me falou o Maluf.” Saturnino conta versão diferente. “Um mês antes da eleição, o Tancredo foi visitar parlamentar por parlamentar. A doença era um boato à época, mas ele estava forte. Se soubessem, teriam lançado outro nome. Na conversa, ele reforçou o compromisso de restabelecer a democracia”, relembrou.

Na foto%2C Tancredo abraça uma criança. Ao lado%2C o jovem Aécio Neves que 29 anos depois disputou a última eleição presidencial contra Dilma Rousseff Agência O Dia

Eles concordam, entretanto, que Tancredo não era um herói nacional. “Ele não teria percorrido um caminho muito diferente do Sarney se tivesse assumido. Só fez o que o Tancredo tinha programado”, afirmou Saturnino. “A eleição do Tancredo foi absurda. O Maluf era tido como continuidade do governo Figueiredo, então despejaram dinheiro para comprar votos”, acusou Agnaldo.

Saturnino Braga: ‘Tancredo só se tornou herói na hora da tragédia’

“Se a oposição lançasse o Ulisses Guimarães, seria um desafio aos militares. Ele mesmo dizia que se fosse eleição direta, seria o candidato, mas como era indireta, que fosse o Tancredo. Ele era muito experiente, um conciliador, político muito talentoso. Jamais foi, porém, um estadista: não foi um herói nacional, como foi Getúlio Vargas, acabou se tornando heroico num momento de tragédia. A verdade é que no dia da sessão, 30 anos atrás, foi um momento de euforia impressionante. E, na realidade, todos já sabiam que ele ia ganhar, que ia ter uma nova Constituição... Nessa transição, o Brasil provou mais uma vez sua vocação de mudar sem dar um tiro, sem nunca ter confronto, pois os militares reconheceram o clamor em torno da redemocratização que tomava conta do país inteiro”.

Agnaldo Timóteo: ‘Como administrador, Maluf é irretocável’

“Antes da eleição, fui procurado por Maluf, que nos levou álbuns com suas obras em São Paulo. Como administrador, Maluf é irretocável. Fiquei impressionado com suas intervenções urbanas. Decidi por ele. O Ziraldo foi quem me levou até Tancredo, que já debilitado e, lembro bem, quase caiu. Foi nosso único encontro. Dias depois, o próprio Maluf, sabendo que o PDT fechara com Tancredo, me deixou livre. Disse que aquela era a última eleição de Tancredo. Realmente o PDT me pressionava. Resolvi subir à tribuna e pedir que os dois se submetessem à junta médica para avaliação e só não apanhei por estar no Congresso. A história provou quem estava certo.”


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