Favorito à Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha é a pedra no sapato de Dilma

Os poderes e as ambições do parlamentar que atormenta a presidenta, e que parece, ele próprio, ser um partido político

Por O Dia

Brasília - Favorito na disputa pela presidência da Câmara daqui a uma semana, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) já cogitou aproveitar o fato de ter cidadania italiana para tentar ser político na Europa. Mas, para infelicidade da presidenta Dilma Rousseff e de ministros palacianos, o plano de ficar bem longe de Brasília não foi em frente. Hoje, Eduardo Cunha é candidato a se transformar na principal dor de cabeça do governo federal pelos próximos dois anos.

Às vésperas de seu quarto mandato%2C o deputado conseguiu montar rede de influências que desestabiliza o PTFabio Gonçalves / Agência O Dia

Não à toa ganhou a alcunha de ‘meu malvado favorito’ no Palácio do Planalto. Mas determinado a ser o primeiro carioca a ocupar a presidência da Câmara desde a ditadura militar, ele calcula que será eleito no primeiro turno, com mais de 300 votos (o total são 513). Uma vez na cadeira, precisará administrar o fervilhante Legislativo, sem esquecer das promessas feitas em troca dos apoios que lhe garantiram a terceira maior votação do Rio em 2014.

Domingo que vem ele iniciará seu quarto mandato mais magro, com mais cabelos e mais forte politicamente do que na primeira vez que foi eleito, em 2002. De lá para cá, mostram os dados do Tribunal Superior Eleitoral(TSE), aumentaram também seu patrimônio, as doações a sua campanha e suas despesas, em ritmo mais acelerado que o do crescimento de seu eleitorado. Com influência direta sobre políticos de variados naipes, em todo Brasil, “moral” para convocar ministros para despachar de seu gabinete, e fiel da balança para algumas pretensões do governo federal, Eduardo Cunha parece ter construído um partido em torno de si.

Nem a menção a seu nome na Operação Lava Jato, da Polícia Federal, que apura o escândalo de corrupção na Petrobras, o abalou. “Esquece isso. A única coisa que pode me atrapalhar é não ter os votos necessários.”

Em 2000%2C Eduardo Cunha era figura importante do governo Anthony Garotinho%2C no comando da Cehab. Hoje%2C ambos são desafetoso dia

Para os aliados e apadrinhados, é o “cumpridor de acordos”; segundo os oposicionistas, faz chantagens e ameaças para honrar as promessas; para as igrejas evangélicas, fervoroso fiel e defensor de bandeiras conservadoras; e para as empresas de ramos como o das telecomunicações é incondicional aliado.

As múltiplas faces de Eduardo Cunha são indícios dos diversos caminhos já trilhados por ele, que hoje é o porta-voz dos insurgentes no Congresso: ao seu comando, tumultuam-se votações importantes para o governo, como nos casos da CPMF, da MP dos Portos e do Marco Civil da Internet.

Sua primeira posição de destaque teve o dedo de PC Farias, tesoureiro da campanha de Fernando Collor em 1989, e operador do esquema que resultou no impeachment do presidente. Graças a ele, Cunha assumiu a presidência da Telerj, prêmio por ter descoberto um erro no registro do apresentador Silvio Santos, então candidato à Presidência. Em 1999, ganhou do hoje desafeto Anthony Garotinho a presidência da Companhia Estadual de Habitação (Cehab), de onde saiu em 2000 após suspeitas de irregularidades. Mês passado, o Superior Tribunal de Justiça arquivou, sem jamais ter julgado, o processo por improbidade administrativa e superfaturamento movido contra ele.

O bordão “o povo merece respeito”, usado até hoje, surgiu em meados dos anos 2000, em programas diários na rádio evangélica Melodia FM, onde ainda dá expediente. À época, era fiel da igreja neopentecostal Sara Nossa Terra, mas está prestes a se converter para a Assembleia de Deus em Madureira. “Tenho muito apoio político lá”, justificou Cunha, que negou já ter pedido votos em igrejas. “É normal votarem em mim, não é?Estou todo tempo, me conhecem...” Conhecem, votam, e sabem que Cunha é um dos porta-vozes do conservadorismo.

“Estamos sob ataque dos gays, abortistas e maconheiros. O povo evangélico tem que se posicionar”, convocou, no Twitter, após a cena do beijo entre dois homens na novela ‘Amor à Vida’, na TV Globo, em 2014.

O crescimento de Eduardo CunhaArte O Dia

“Sua atuação política na presidência da Câmara terá compromisso com a Bíblia. Aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo, jamais serão votados com ele lá”, conta um deputado fluminense ligado às igrejas.

De olho em 2018, quer o PMDB livre da aliança com o PT, com candidato próprio à Presidência. Até lá, espera ser candidato ao Senado.

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